19 janeiro, 2016

ALMAS DESEMPENADAS

René-Jacques

Regresso a este momento radical em que, sentado na biblioteca a trabalhar, sou interrompido por um garoto com idade para ser meu neto para me perguntar se tenho uns phones que lhe empreste. Se na primeira abordagem do assunto fui movido por uma dinâmica sociológica, esta inesperada avalanche de realidade no lago de águas serenas que é o meu eu, acabou por exorbitar o meu lado introspectivo, mais focado na minha experiência interna diante do mundo do que propriamente nesse mundo. Dei logo conta do facto desta investida me ter cindido em duas partes descontínuas: de um lado, o meu comportamento enquanto manifestação exterior e directamente observável; do outro, a experiência interna desencadeada pelo pedido do rapaz, íntima e apenas acessível à minha consciência. 

O que pode ter sido observado em mim? Tendo o rapaz sido educado, eu também o fui. Disse-lhe que não tinha phones e com os mesmos ar, expressão, tom de voz com que diria não saber as horas se me tivesse perguntado, ou declinasse um pedido de ajuda num tema do qual nada entendo. Ou seja, com a maior das naturalidades, como se movido pela mais natural das perguntas. Quem estivesse de fora a observar-me, veria o meu «não» como tendo o mesmo sentido performativo dos outros dois. Não tenho phones, tal como não tenho relógio nem o posso ajudar num dado tema. Vamos supor que a situação seria observada por outros garotos em cuja consciência é também dado como admissível interromper um professor para lhe pedir uns phones.  Tão normal como para mim seria o garoto vir ter comigo para me perguntar as horas ou ajuda num assunto escolar. Perguntar as horas a desconhecidos é um acto social normal e não é descabido pedir ajuda a um professor numa biblioteca escolar. Para os garotos que observariam este rápido diálogo, o meu comportamento seria descodificado como uma pessoa da minha idade descodifica a resposta de alguém que não sabe as horas a quem lhe pergunta. Mas o que aconteceu dentro de mim foi completamente diferente. O meu «não» face ao pedido dos phones fez-me sentir, no mesmo instante em que o disse, pertencer a dois mundos ou, como Janus, a dois tempos diferentes. O meu corpo, a minha voz, a minha educação, o meu desempenho social, fez-me sentir uma pessoa normal, a mesma de sempre e em perfeita harmonia com os critérios sociais actuais. O meu espírito, porém, fez-me sentir um fantasma, vagueando por uma realidade cuja opacidade o impede de nela se fixar por completo. Ou como se de repente deixasse de me sentir na minha própria casa para estar na casa de outra pessoa.

Esta minha experiência de uma cisão entre o interior e o exterior, ainda que individual e única, pode ser usada para perceber o processo em que pessoas de um dada geração ou classe social se dividem entre dois mundos, em períodos de mudança geracional ou transformação histórica. No fundo, trata-se de conciliar em simultâneo duas normalidades, uma passada, e que confere identidade, e outra presente, que confere legitimidade à (ainda) nossa presença do mundo. O mundo já não é o nosso mas também não queremos perder o direito a estarmos nele. A nível geracional, isso acontece, por exemplo, entre avós e netos, pais e filhos, professores e alunos, pessoas mais velhas em geral face às novas dinâmicas sociais. A nível colectivo, podemos pensar na evolução da nobreza medieval perante a evolução do capitalismo mercantil, o imobilismo aristocrático com os seus atavismos face às revoluções liberais e democráticas que foram erodindo os Antigos Regimes ou até mesmo ao modo como foram absorvidas pela democracia portuguesa elites sociais do regime anterior. 


Não estamos, nestas situações de mudança, perante almas penadas, almas que não conseguem libertar-se de vez do mundo físico. A ligação, por vezes difícil, ao mundo não é aqui sentida como uma pena, um castigo. Bem, pelo contrário, são almas desempenadas de pessoas, que tentam, com mais, ou menos dificuldade não perder o comboio do tempo. Vão dentro do comboio, avançam, só que sentadas de costas, ainda com os olhos para montante quando, noutras viagens, já foram sentadas de frente.