10 janeiro, 2016

ALL RIGHT, MR DeMILLE, I'M READY FOR MY CLOSE-UP


«The two things you cannot do effectivelly on stage are pray and copulate». Orson Welles

Ainda não há muito, o cancro era uma doença inominável. Nos jornais ou na televisão ninguém morria de cancro mas de doença prolongada. E quando era inevitável usar a palavra, seria sempre com grande discrição e pudor. Como se fosse uma doença impura, uma mácula que, apesar de não ser contagiosa, exilava o doente num estado de impureza e alteridade. Morrer seria sempre dramático e cruel mas morrer lentamente de cancro seria sempre mais impuro do que com um limpo e rápido ataque de coração. Cada cancro teria o seu rol de impurezas: o cancro do fígado (álcool) seria diferente do cancro de pulmão (cigarros, tosse, escarros), o cancro da pele (manchas, erupções) não se confundia com o cancro do intestino (sacos, maus cheiros) ou com o cancro da garganta (ficar com voz metálica e comer e beber pelo pescoço). Um enfarte ou um AVC não impunham uma metamorfose, uma alteração de natureza na passagem da vida para a morte. Já o sofrimento prolongado, a dor do tratamento, as consequências físicas, tanto exteriores como interiores do cancro, levavam os seus mais próximos a assumir um certo pudor e os jornais uma espécie de respeito e distância perante aquele que já estava morto ainda antes de o ser. Enfim, uma espécie de SIDA mas sem a moral e a ideologia.

Felizmente, a nossa percepção do cancro mudou. Tornou-se uma doença mais curável, os tratamentos mais limpos, o doente com cancro continua muitas vezes a fazer a sua vida normal e as pessoas vêem os doentes apenas como doentes e não como miseráveis condenados nas sinistras e esquálidas galés da vida. E os jornais não só passaram a nomear o cancro como doença que vitimou alguém, como a zona do corpo associada a esse cancro; pâncreas, mama, pulmões. Finalmente, apenas uma doença e não um estigma.

Mas como chegámos aqui? Quer dizer, como se passou tão rapidamente do tabu à normalidade e da normalidade ao espectáculo? Porque vivemos cada vez mais num mundo em que tudo é passível de se transformar em espectáculo. E espectáculo onde, ao contrário do mundo que nos antecedeu, deixou de haver actores e espectadores. Somos todos actores e produtores do nosso próprio espectáculo. Um espectáculo contínuo, permanente. Graças ao blogue, ao facebook ou a outras redes sociais, ao twitter, às revistas, à televisão (o próprio telemóvel permite entrarmos nas vidas de tantas pessoas que o usam no espaço público, seja no café, num comboio, numa bicha do supermercado), todos, sem excepção, expomos não só o corpo nos seus diferentes contextos, como os estados de alma. Uns, as alegrias, outros as tristezas, uns, as suas vidas felizes com os seus filhos perfeitos, as suas casas perfeitas, as suas viagens perfeitas, outros, militantes da neura, o quanto a vida lhes é madrasta. E tudo é passível de espectáculo, desde a festa de anos do afilhado, o dia na praia, a fotografia em Veneza, a ida ao restaurante. Não tem nada de mal, são os tempos, aceito. Há um ano e tal estive num jantar de professores e alunos de uma turma de há dez anos. Mais para o fim, vejo quase toda a gente de telemóvel na mão, enquanto trocavam alegremente comentários. Precisei de algum tempo para perceber que durante o jantar já estavam a colocar fotografias do próprio jantar no facebook. No momento senti-me como se tivesse acabado de chegar directamente do século XIX para o século XXI e foi com uma certa condescendência paternal que reagi. Mas repito, são os tempos e as coisas são o que são.

Creio, porém, existirem limites, não por razões morais, não sou nem quero ser moralista, mas de decência. Quem está doente deve falar da sua doença e partilhá-la com outros que dela sofrem. É catártico, consola, ajuda a enfrentar os fantasmas. Mas o que ali vemos é outra coisa. É a continuação do espectáculo, o cancro como argumento do espectáculo, mais um pretexto, entre outros mil, para o espectáculo não parar. Um espectáculo que, parece-me, por vezes deveria mesmo parar. Entendo e concordo com o que diz Orson Welles. Acrescentaria apenas a doença.