26 janeiro, 2016

A SUÉCIA

Hans Wahlgren

Não é só o sociólogo Augusto Santos Silva. As elites intelectuais, académicas´e culturais tiveram sempre dificuldade em compreender o sentido do gosto na cultura popular e comercial. A esquerda romântica, ainda com uma visão messiânica do povo, tende a explicar o «mau gosto» popular através de uma deficiente educação. Se o povo não liga muito a Bach, e menos ainda a Cage ou a Berio, preferindo correr em estado de histeria para os concertos de Tony Carreira, é porque não foi devidamente educado. E, se ao serão, por nada deste mundo, troca as telenovelas ou Teresa Guilherme pelas Três Irmãs, de Tchekov, a culpa será do Estado por ter falhado nas suas políticas educativas e na promoção de uma maior igualdade social e de oportunidades. Os mais exacerbados, e que ainda existem, dirão mesmo que resulta de um plano intencional da burguesia e do grande capital para manter o povo estúpido e ignorante e assim explorá-lo melhor. De novo o ópio mas em versão high-tech

Mas será mesmo assim? Tratando-se mais de uma questão empírica do que normativa, fiquemos nesse registo, olhando não para Portugal ou Bolívia mas para os países mais igualitários do mundo e onde o Estado Social foi muito levado a sério, nomeadamente na educação. Por exemplo, a Suécia.  Acontece que, apesar de anos e anos de elevada educação pública, a Suécia também é isto e muitas outras coisas similares. Surpreendente? Num livro chamado Reflexões sobre a Revolução na Europa, Sir Ralf Dahrendorf (filósofo e sociólogo, mundialmente reconhecido por ter sido orientador de João Carlos Espada), diz o seguinte:

«A «Suécia» não é a Suécia, é um sonho sem qualquer fundamento no mapa da Europa. E mais: temos de agradecer aos nossos bons fluidos que não exista uma «Suécia» no mundo real, porque, se existisse, estaria localizada algures entre a Singapura de Lee Kwan Yew - que acha difícil aceitar no seu «parlamento» um único membro da oposição e impõe uma multa de 200 dólares por se atirar lixo para a rua - e a república de Platão, na qual os reis-filósofos providenciavam para que nenhuma dissidência surgisse, dado que só eles estavam de posse da verdade. A Suécia real, felizmente, é um país livre, com muito do desalinho e variedade, desorganização e heterogeneidade, conflito e mutabilidade, que permitem o florescimento de oportunidades de vida humana e, com elas, dos próprios seres humanos

Pois, acontece que a «Suécia» não é a Suécia. E por muito boa educação e dinheiro que haja, e apesar da aparência mais urbana e polida, haverá sempre mais suecos a gostar de futebol do que de teatro experimental; os Abba serão sempre mais populares do que Atterberg ou vizinhos que tanto podem ir de Grieg e Sibelius até Jan Garbarek, Terje Rypdal ou Arild Andersen, e um filme como Mamma Mia ou de acção será sempre mais popular do que qualquer um de Bergman ou Dreyer. Em suma, haverá sempre mais suecos a gostar do que é fácil do que do que é difícil. Estranho? Não, longe disso e o contrário é que seria de estranhar. Os suecos são apenas humanos e a Suécia, como o resto do mundo, não é feito de estetas, artistas, filósofos, intelectuais, académicos. 

Vale a pena perder dois minutos a ouvir o que nos diz Michael Walzer sobre o «bem comum», mas quero realçar a parte final:




Muito bem: segurança física, liberdade, maior igualdade social, intervenção cívica. O desvario vem depois. Claro que é lindo imaginar uma sociedade onde as pessoas depois arrumarem a cozinha vão sintonizar um canal cultural para ver Shakespeare em vez da telenovela, reality shows ou debates futebolísticos onde se vê 50 vezes a mesma imagem para saber se foi mão na bola ou bola na mão. Uma sociedade onde as pessoas sentirão mais curiosidade pela Pré-História, Biologia Molecular ou Arte Barroca do que em saber como vai o cancro de um famoso ou quem é o 25ª namorado de uma famosa. Sim, é lindo e até consigo ouvir os passarinhos a chilrear no meu sistema límbico enquanto imagino. Acontece, porém, que tal sociedade nunca existiu, não existe nem nunca existirá. E enquanto as elites, sobretudo as de esquerda, não entenderem isso, continuarão a não conseguir disfarçar um profundo desprezo pelo povo cujos interesses dizem defender e em nome do qual justificam a sua acção política e ideológica. Defensores destes o povo dispensa bem.