23 janeiro, 2016

A ROUPA DO PROFESSOR SOB O SOCIALISMO

Diane Arbus

Ando, vai quase para dois dias, a ser perseguido por um misto de angústia e inquietação que teima em não me largar: será que uma professora, como por exemplo esta, que tenha na parede da sua sala o menino da lágrima e um cachecol da selecção portuguesa, reúne condições para educar as crianças e jovens da nação? 

O liberal que há em mim grita junto a um dos ouvidos da minha consciência, fazendo-me lembrar o saudoso Jorge Perestrelo: «-Mas o que é que é isso? És um liberal, cada pessoa é livre de ter em sua casa o que quiser, vivemos em 2016 numa democracia e não em 1984 como orwellianas ovelhinhas sem identidade individual!». Mas, depois, e tal como à Europa em 1848, persegue-me um espectro que, no outro lado da consciência, sussurra com falinhas mansas, mas garras e dentes afiados: «-Não, não, os cidadãos devem ser protegidos de si próprios e uns dos outros, e nada melhor do que uma estrutura superior e imparcial para impor padrões que vão certamente tornar as vidas dos cidadãos mais perfeitas. Que se lixe a liberdade pois o que conta, qual valor supremo, é a igualdade, bem acima dos caprichozinhos estéticos e ideológicos de cada um!». Eis-me pois aqui chegado, atormentado entre Cila e Caríbdis ou entre o poço e pêndulo ou, numa linguagem mais contemporânea, entre Pinto da Costa e Bruno de Carvalho. Que fazer (salvo seja), então? Como é meu apanágio, serei justo e imparcial na minha douta análise.

Admitindo que uma professora em cuja parede da sala está o menino da lágrima, consegue ser tão boa professora como uma outra que vai a Florença, Amesterdão ou Madrid para ver obras de arte, naturalmente que a sua liberdade estética deve ser respeitada. Dentro de sua casa em sua casa está, não havendo por isso qualquer ameaça para a sociedade. Mas vamos supor que a professora tem um gosto atroz a vestir, um gosto de tal modo tóxico que passa a ser um problema de saúde estética pública (Atenção, não me estou a referir a uma situação de desarranjo e desleixe, intolerável numa profissão com esta responsabilidade. Nem dou a mulher como exemplo por preconceito chauvinista ou por achar que se deve ser mais exigente com as mulheres do que com os homens, mas apenas porque, devido às suas diferenças de indumentária, o mau gosto na mulher tem muito mais possibilidade de dar nas vistas do que no homem, embora sabe Deus o que também pode acontecer com aquele). Pensemos numa professora que começando nos sapatos ou botas, passando pelas meias, a saia ou o vestido, os brincos, o penteado e acabando no perfume, se destaca pelo mais atroz dos gostos, confundindo-se com a mais humilde das mulheres que, desejando vestir-se bem, compra as mais pindéricas roupas na mais pindérica das lojas do mais pindérico centro comercial de uma pindérica vila deste país ainda com tanto de pindérico. O que fazer? Sim, eu sei, a mais subversiva das perguntas.

Mas uma pergunta nada despicienda. Um professor é um educador, seja ele de Matemática, Filosofia, Educação Visual ou Português. Ou seja, não importa apenas a sua competência científica e pedagógica mas também moral e estética. O professor é observado por milhares de alunos ao longo dos anos. No fundo, está num palco, onde se apresenta diariamente como referência para as crianças e jovens. E bem sabemos como no processo de socialização os comportamentos e gostos dos mais novos são legitimados pelos comportamentos e gostos dos mais velhos, formando-se assim uma noção de normalidade com a qual devem jogar as nossas expectativas e práticas sociais.

Ora, neste sentido, é gravíssimo que uma professora (vá, professor também) cujo gosto a vestir, calçar, ornamentar e cheirar é atroz, entre numa escola para educar os jovens. Mas como pode educar nestas condições, ainda para mais paga por um Estado que tem por obrigação contribuir para a emancipação dos seus cidadãos e promover uma maior igualdade estética entre pessoas de diferentes classes sociais? O seu mau gosto será assim uma forma de perpetuar as desvantagens de tantas crianças e jovens de meios humildes que, durante o seu processo de socialização, não tiveram a oportunidade de promover o bom gosto. Por isso, só vejo uma solução. Cada escola formar uma comissão (nada difícil, uma vez que formar comissões é um dos passatempos preferidos dos professores) de estética que imponha critérios mínimos de gosto de modo a permitir a um professor/a com um gosto atroz, reúna condições para poder entrar numa escola e ficar exposto/a aos absorventes olhares de tantas crianças e jovens.

Em suma, sou liberal, sim, mas o socialista que há em mim, preocupado com os mais desvalidos, exige a intervenção de um Estado cuja existência só faz sentido se contribuir para uma maior igualdade entre os seus cidadãos. E por onde deve começar essa igualdade senão pelo impacto das primeiras impressões, momento absolutamente determinante para se formar uma ideia acerca da pessoa? Para além, claro, do problema de saúde (estética) pública dentro de uma escola enquanto o mais formal de todos os espaços educativos.