08 janeiro, 2016

4X400


Como reagi a isto? Assim: pfffff! Exactamente: pfffff! Quero lá saber, eis uma coisa que não me aquece nem arrefece. Mas como sou uma criatura meio introspectiva (embora dispense caveiras de bobos), gosto de perceber as minhas reacções. Neste caso, perante um homem com uma vasta experiência política, tanto a nível nacional (desde o sótão de Algés) como internacional, inteligente, culto, com ideias, com faro político, com uma sensibilidade social e moral que fica sempre bem num político. Estarei a ser irresponsável, ingrato, contaminado por uma perigosa indiferença?

Reagi assim porque todos os nossos políticos são ocasionais. Não recorro ao termo «ocasional» por acaso. Foi o que Mário Soares chamou a Vítor Gaspar quando era este ministro das Finanças. Eu percebo o que queria dizer a velha raposa. Trata-se da antiga e aristocrática ideia de que o bom e verdadeiro político será alguém cujo especial carisma, poder visionário e personalidade torna-o parte de uma elite a milhas do cidadão comum. E Vítor Gaspar ou António Guterres, não são, de facto, para o bem ou para o mal, um Alexandro Magno, um D. João II, uma Isabel I (neste caso por razões ainda mais óbvias e que não passam apenas pela cor do cabelo), um Napoleão, um Bismarck, um Garibaldi, um Simão Bolívar, um Fidel Castro, um Hitler, um Estaline, um Churchill. Políticos não ocasionais, pessoas que sendo metafisicamente contingentes (poderiam não ter existido), tornaram-se figuras imprescindíveis para compreendermos o percurso desse longo rio que é a história universal.

Não há qualquer mal em ser político de ocasião. A história não é toda igual e nem todo o político consegue estar à hora certa no sítio certo. Grande parte dos políticos são de ocasião porque esta é feita por eles enquanto têm fôlego para tal. Mas há uma minoria que é feita pela ocasião, que é um produto da ocasião e que sobrevive à custa da ocasião, ou seja, depende do «fôlego da ocasião». Têm em comum, um fatal ocaso. Churchill foi um herói porque ajudou a esmagar a besta nazi. Mas pouco depois o povo inglês mandou-o dar uma volta, perdendo as eleições. Eis, pois, um herói, um enorme vulto, um grande político transformado de imediato num político de ocasião, atirado fora como a pastilha chiclete dos Táxi. António Guterres não é Winston Churchill, nem sequer o imagino a fumar charuto enquanto pinta quadros no seu aristocrático repouso. Mas a verdade seja dita, também nunca teve como missão ajudar a esmagar a besta nazi nem dar moral a um povo bombardeado. É um político que teve «apenas» que gerir orçamentos e aplicar alguma ideologia num modelo social e económico que pouco pode variar e que não permite grandes golpes de asa. E, independentemente de o fazer bem ou mal, grande parte da vida política é feita de pequenas ocasiões e não de momentos épicos e de aceleração histórica. Aliás, muitos dos grandes pesadelos da história devem-se ao poder visionário e transformador de alguns homens que se viram a si mesmo como sábios e iluminados, estando acima da pequena política ocasional.  Muitas das boas histórias que a história nos deu são feitas de pequenas ocasiões, pequenas notas de rodapé escritas no grande livro da história. A história não perdoa: encarrega-se de transformar todos os seus protagonistas em pequenos criados de senhores que só chegaram a existir na sua própria imaginação. Napoleão montado no seu cavalo em Jena não passou de um simples criado de um deus desconhecido. A galeria de políticos não passa pois de uma espécie de estafeta 4x400 metros só que com mais políticos e variando mais as distâncias.

Voltando a Portugal, no fundo, temos de aprender a relativizar as coisas. Ser presidente de uma junta de freguesia não é o mesmo do que ser ministro. Ser presidente da sociedade recreativa de uma aldeia não é o mesmo do que ser presidente da Gulbenkian. Talvez por isso assumir responsabilidades políticas em Portugal seja um processo menos dramático do que em países que estão na linha da frente da história e onde o peso da história se faz mais sentir. A história recente de Portugal não me tornou indiferente à política. Em relação aos nossos políticos já não poderei dizer o mesmo. Nenhum deles nos irá salvar, nenhum deles nos irá destruir. Sic transit gloria mundi.