18 dezembro, 2015

THE ONE E O MÚLTIPLO


É bem conhecido o ódio de Platão à democracia. É mais ou menos assim: sendo o povo estúpido e ignorante, é nessa condição que é convidado a eleger as pessoas que comandam os destinos da cidade, levando assim a que possam ser os mais incompetentes a desempenhar tão séria e nobre tarefa. No seu texto político mais importante, «A República», mais conhecido por «República de Platão», um pouco na mesma linha de «A Fiorentina de Paulo Sousa» ou o «Rapid de Bucareste de Cândido Costa», recorre a uma analogia engraçada para explicar isto: tal como a incompetente tripulação de um navio pode convencer, por um processo de manipulação, um armador ingénuo a comandar o seu navio, também pelo mesmo processo os mais incompetentes podem vir a governar. E o que acontece a um navio comandado por quem não conhece as técnicas de navegação? Afunda-se. Pois bem, é também isso que pode acontecer, graças à democracia, à cidade.

Claro que percebemos onde quer chegar Platão com esse lado assustador da democracia. Mas calma, pois imaginar um conjunto de sábios que julga manter uma privilegiada e exclusiva relação com a verdade, a dirigir os destinos da Cidade, não é menos assustador. Aliás, nem é preciso imaginar, basta olhar para a história, sendo a do século XX especialmente pródiga no assunto, com os seus trágicos comunismos e fascismos. Para além disso, a democracia tem uma vantagem. Ao contrário de um mau dirigente, o povo não pode ser mudado. Quer dizer, poder até pode mas dá muito trabalho. Por exemplo, Estaline, Hitler, Salazar, Mao, Pol Pot ou Fidel Castro adoraram a ideia de poder mudar de povo, criando um novo à imagem e semelhança das suas doutas e inspiradas visões sociais e políticas. Ou até, se pudesse, o presidente Maduro, da Venezuela, dando lugar a um povo mais amadurecido, menos infantil, ingrato ou parecido com os idiotas do barco de Platão a fim de poder melhor entender a sua nobre e paternal missão. De qualquer modo, não é funcional e, nos dias que correm, politicamente correcto. Daí ser muito mais fácil e prático mudar de dirigente do que mudar de povo. 

Ora é isso que acontece nas democracias e também isso que aconteceu no «Chelsea de Mourinho», sendo esta notícia bastante clara em relação a isso. Mourinho é ou não é um dos melhores treinadores do mundo? É. Deu ou não deu títulos ao clube que agora o despede? Deu. Será que um qualquer vírus atacou a clarividência futebolística do «Special One, devendo passar a treinar o Estrela da Amadora ou os Dragões Sandinenses? Não. Acontece que a equipa campeã de Inglaterra sob o comando de Mourinho, passou a jogar mal por causa de um desentendimento com o seu treinador. «Que fazer?», como perguntou em tempos outra sinistra personagem do século XX. Ora, já que seria complexo mudar a equipa do Chelsea, que, ao contrário de Mourinho, que continuou a treinar bem, começou a jogar mal, ainda que saiba jogar bem, muda-se então o treinador. O «Special One» pode ser um iluminado e ter uma visão única das  melhores ideias para levar o Chelsea às vitórias. Mas venceu a maioria descontente, a populaça, o demos, ou, como diria o nosso Fernão Lopes, a arraia-miúda, levando o aristocrata treinador a ser expulso da cidade. O uno inteligível está acima de todas as coisas. Mas o múltiplo, unido, costuma não não ser vencido. Sendo casado com uma antiga estudante de Filosofia, talvez seja aconselhado, agora com mais tempo livre, a passar os frios e chuvosos serões londrinos a ler a «República de Platão».