23 dezembro, 2015

TARTUFO E ORGON


Esta cena pintada por Jacobus Buys em finais do século XVIII representa um dos momentos altos do Tartufo, a famosa e divertida peça de Molière: Orgon, por indicação da sua mulher, Elmira, descobre que Tartufo é um impostor e não o semi-deus que pensava ser. Elmira, sabendo há muito que Tartufo é um patife, e que pretende dela favores sexuais, aproveita a cupidez deste para provar ao marido a verdadeira natureza da criatura, um aldabrão que se instalou lá em casa, cheio de mordomias, completamente idolatrado e endeusado por um ingénuo Orgon, incapaz de ver a realidade mesmo à frente do seu nariz. Elmira, desesperada com a situação, pede então ao marido para ficar debaixo da mesa, esperando o previsível assédio de Tartufo.

A minha dúvida agora é a seguinte. De quem é o retrato que vemos na parede? Orgon ou Tartufo? De Orgon, por ser o verdadeiro dono da casa. Mas também pode ser Tartufo por entretanto se ter apoderado daquela casa, dominando tudo e todos, explorando a ingenuidade de Orgon que vê nele uma referência moral, intelectual, religiosa, humana. Ora, a leitura da imagem terá de ser diferente consoante se trate de Orgon ou de Tartufo. 

Se for Orgon pode ser feita a seguinte leitura. Temos, no retrato, uma figura estática, imutável, artificial e etérea, vivendo fora da realidade. Porém, em baixo, temos o verdadeiro Orgon. Um homem de posição social elevada mas que, para poder chegar à realidade teve de se sujeitar a ficar deitado no chão, debaixo de uma mesa. Posição pouco consentânea com o seu estatuto mas absolutamente necessária para se salvar. Digamos que Orgon teve de descer para se poder elevar.

E se for Tartufo? Neste caso, a leitura terá de ser outra. Teremos o Tartufo que o próprio Orgon, na sua ingenuidade, estupidamente idealizou: uma figura hierática, pose majestática, um ar solene, um ser superior com o seu ethos imaculado. Todavia, abaixo deste, vemos o verdadeiro Tartufo sentado na cadeira: perverso, lascivo, sem carácter, em total contradição com o ideal do retrato. Neste sentido, e ao contrário de Orgon, fica claramente a perder com a comparação entre os dois níveis, o superior e o inferior. Enquanto Orgon se ganhou a si mesmo no momento em que sai do mundo aparente para o mundo real, é nesse movimento que Tartufo deita tudo a perder. Orgon, sabendo o que entretanto passou a saber, preferirá certamente viver com os pés bem assentes no chão do que num mundo artificial de cores e formas. Tartufo, sabendo que foi apanhado nunca terá desejado tanto ser a falsa figura, em fuga da própria realidade.


Este conflito de interesses merece certamente uma leitura política que dá pano para mangas. Mas também uma leitura global. Quantas vezes, na vida, o que poderá ser um grande trunfo para alguns não poderá representar a perdição e a desgraça para outros? É por isso que a moral da história na caverna de Platão não é assim tão linear. Uns, regozijam-se com o prazer de lá sair, outros, com o prazer de lá ficar e contra isso batatas. Aceitar ficar algum tempo debaixo de uma mesa, numa posição desconfortável, para descobrir a verdade, não é para todos.