16 dezembro, 2015

SUMMUM JUS, SUMMA INJURIA

Alain Resnais | O Último Ano em Marienbad [composição de fotogramas]

Chega a ser irritante a nossa mania de querer justificar tudo. Mas pronto, até se compreende, talvez pela relação familiar entre as noções de justificação e de justiça. Um mundo sem justificação perde uma certa ordem da qual precisamos como de pão para a boca, pois é o que faz com que cada coisa ocupe justamente o seu lugar em vez de outro qualquer. Daí precisarmos de justificar uma derrota desportiva, uma morte, um acontecimento triste. Coisas más, mas que, sendo justificadas, passam a ter uma razão, levando-nos aceitá-las melhor. Pelo contrário, estarmos perante uma coisa que não conseguimos justificar deve ser mais ou menos o que sente uma pessoa a quem morreu um familiar cujo corpo nunca apareceu. Sabe que está morto mas não consegue fazer o luto pois não consegue justificar que está morto, sendo um factor de perturbação que instala uma desordem no mundo que se torna, assim, vazio de sentido e com a marcado da irracionalidade colada à sua pele.

Mas não deixa de ser um erro. Não temos de procurar a justiça num mundo que não feito para ser justo. Claro que tudo tem uma causa, mesmo as coisas mais estranhas e bizarras. Mas não temos de entender tudo como se o mundo fosse feito por um engenheiro ou um arquitecto no seu atelier. O mundo é o que é e não o que nós queríamos que ele fosse. Mas mesmo que consigamos justificar o que gostaríamos que não fosse, o exercício é tão tortuoso e desgastante que mais vale aprender a viver com a irracionalidade que por vezes se instala na experiência que temos do mundo. 

Daí poder tornar-se interessante o seguinte exercício: em dadas circunstâncias, mais do que pretendermos justificar as coisas para lhes atribuir um sentido, deveríamos procurar injustificá-las para aprendermos a conviver com o seu não sentido. É certo que estamos racionalmente formatados para justificar mas deveríamos aprender também a injustificar. Por exemplo, eu sei justificar muito do que sou e do que faço, a começar pelo radical facto de ser em vez de não ser, ou, já menos radical, de ser professor de Filosofia, benfiquista ou amante de jardins. Se eu perguntar porque existo em vez de não existir, não é difícil responder. Sou filho de um pai e de uma mãe, de quatro avós e por aí adiante. Faço parte de uma espécie que vive na Terra, espécie da qual saiu uma infinidade de criaturas iguais a mim, e se essa Terra existe é porque existem razões físicas, num plano cósmico, para que tal acontecesse. Em suma, há sempre uma razão suficiente para justificar porque existe o ser em vez do nada. Porém, por cada uma dessas razões, consigo arranjar inúmeras outras que tornam plausível a ideia de dever ter sido tudo de maneira diferente e até ao contrário. Milhões de razões que injustificam a ideia de eu existir, ser benfiquista ou amante de jardins. Razões insuficientes para justificar o que sou e o que faço mas que seriam suficientes num outro mundo possível onde as minhas razões suficientes passariam a ser insuficientes.

Procurar injustificar pode parecer uma busca do absurdo, do que não faz sentido. Mas porquê presumir apenas a ordem e a racionalidade como categorias legítimas?  Num mundo de acasos, de sorte e azar e de átomos tresloucados, injustificar será sempre o exercício ideal para fazer o luto de um morto que nunca aparecerá. Evita-se, assim, o que muitas vez, infelizmente, acontece: por tanto se querer justificar, acaba-se por morrer de uma cura que não só não faz aparecer quem morreu como também mata quem esperava por ele.