01 dezembro, 2015

SPOOKS

Paul Strand | Mulher Cega, 1916

Eu também tive o meu momento Coleman Silk, o desgraçado professor de A Mancha Humana, de Philip Roth. Foi há muitos anos. Já na ponta final do ano lectivo, depois de almoço, um calor de rachar, ia a chegar à escola quando vejo um conjunto de lagartixas que identifiquei como meus alunos, a apanhar banhos de sol. Minutos depois, já na sala, digo-lhes que deviam ter cuidado com o sol porque àquela hora é perigoso. Entretanto, olhando para dois alunos que faziam parte da turma, disse, só por piada, enquanto os ameaçava com o sumário da aula, que o A. e o E., por serem pretos, já poderiam apanhar sol sem os traumas dos brancos.

No final da aula, duas alunas vieram ter comigo para perguntar se eu tinha consciência do que havia dito em relação ao A. e ao E. Percebi logo onde queriam chegar mas fiz-me totó. Lá me explicaram então ter eu dito que eram pretos, perguntando-me se eu tivera consciência disso. Precisei pois de explicar que foi precisamente por serem pretos que me lembrei deles, tal como dos outros por serem brancos. Expliquei mas não convenci. Na cabeça delas, o simples facto de eu dizer que são pretos foi um acto racista. Ora, dizer que fulano X é preto, é tão racista como dizer que fulano Y é loiro e de olhos azuis. Racista é precisamente pensar que é racismo dizer que fulano X é preto, uma vez que já está a pressupor que ser preto é negativo.   

Esta minha ida ao baú deve-se a esta polémica. Ora bem, é novidade haver cegos e ciganos num governo? Basta pensar quantos já estiveram em governos para a resposta ficar dada. Sendo assim, é notícia? Claro que é. Num país tão cheio de discriminações como Portugal, ver um cego (juro que não é piada) e um cigano num governo é um dado relevante. Como passou a ser relevante, há anos, o facto de surgirem mulheres como presidentes de câmara ou ministras. E, numa altura em que isso já era considerado normal, uma mulher em Espanha tornar-se ministra da Defesa, ainda para mais, grávida. Mais: uma excelente notícia para quem, como eu, acha que todos os seres humanos nascem iguais embora depois a vida se encarregue de os fazer diferentes. Aliás, dentro das pessoas que conheço, foi encarado com bastante naturalidade a nomeação de uma cega, de um cigano, e de uma preta, como foi com agrado que vimos um preto chegar a presidente dos EUA, ou na Índia foi notícia António Costa ser primeiro-ministro de um país europeu.

O problema aqui, para quem o problema existe, tal como aconteceu com as minhas duas alunas, está em chamar cego ao cego e cigano ao cigano. Segundo a moralidade do «politicamente correcto», e graças a um processo de manipulação digna do romance 1984, fulano X deixou de ser cego para passar a ser invisual e o fulano Y, de cigano, passou a fazer parte de uma minoria étnica. O simples facto de eu ter lembrado que os meus alunos eram pretos, foi um acto racista, uma vez que se trata de um facto que tem de ser tratado com muita cautela e parcimónia, quiçá, eufemisticamente, o que faz com que mesmo que tivesse dito «negro» em vez de «preto, talvez não resolvesse. Direi que são palavras com um excesso de semântica, palavras cujo hiperbólico sentido moral ou ideológico anula a sua referência objectiva, neutra, factual. A primeira vez que tive a consciência disto foi, nos anos 70/80, com a palavra «comunista». Quando Álvaro Cunhal dizia «os comunistas» e Sá Carneiro dizia «os comunistas», estavam a dizer a mesma coisa mas coisas completamente distintas. Para muita gente, dizer «comunista», por exemplo «O Luís é comunista», não é uma identificação ou associação neutra e objectiva mas um juízo de valor cujo sentido tanto pode ser elogioso como desprezível. Quando Sá Carneiro, num discurso perante o seu eleitorado, dizia «os comunistas» isso tinha um significado moral e psicológico que esmagava a sua simples referência e o mesmo se passava com o «Nós, os comunistas» de Álvaro Cunhal. É o mesmo que acontece com o planeta Vénus, que pode ser duplamente apresentado como «Estrela da manhã» ou como «Estrela da tarde». A referência é a mesma (o planeta Vénus) mas os sentidos são completamente distintos. O mesmo se passa quando Bento XVI (ou Ratzinger) dizia «os ateus» ou «os homossexuais» ou quando um membro do ISIS diz «os cristãos». Acontece que não é a palavra que está infectada semanticamente. A palavra apenas invoca uma referência. As cabeças é que estão moralmente infectadas por um excesso de ideologia e de moralismo que, magicamente, lhe incute uma carga positiva ou negativa. Claro que há palavras cuja referência, graças a um certo consenso moral e ideológico, podem adquirir um objectivo sentido negativo ou positivo. Ser «nazi» não traduz o simples e objectivo facto de pertencer a um movimento político mas a associação a uma patologia, a um desequilíbrio, a um registo psicológico, social e moral problemático. 

Não é, todavia, isso que se passa com «cego», «cigano» ou «preto». Aliás, vale a pena pensar por que razão o Correio da Manhã não acrescentou «preta» aos dois anteriores, uma vez que o impacto é o mesmo. Tenho uma intuição mas fico-me só por ela. Não sou ingénuo, sendo capaz de seguir o processo mental de quem escolheu este título num jornal populista como é o Correio da Manhã. Porém, no seu possível cinismo garrafal, trata-se de um título intocável. O que não acontece com as histéricas reacções de quem procura a redenção através de uma moral condescendente e paternalista que divide o mundo entre «normais» e «espécies protegidas».