15 dezembro, 2015

SIM, TERRORISTAS, SO WHAT?

Henri Cartier-Bresson | Paris

Dei há dias um teste no qual um dos exercícios consistia em distinguir juízos de facto e de valor. Rapidamente: os juízos de facto são descritivos, objectivos e independentes de diferentes perspectivas, enquanto os de valor já implicam uma avaliação, positiva ou negativa, por parte de um sujeito. Frases como «O holocausto foi moralmente horrível», «A justiça é mais importante do que a liberdade» ou «Seria um erro permitir touradas de morte em Portugal», devem ser identificadas como juízos de valor; frases como «O holocausto é considerado moralmente horrível», «Muitas pessoas preferem a justiça à liberdade» ou «Existem touradas de morte em Espanha», como juízos de facto. 

A maior parte dos alunos resolve facilmente este exercício. Houve, porém, uma frase que causou problemas: «A clonagem é uma ameaça à individualidade dos seres humanos».  O facto de implicar uma ameaça à individualidade dos seres humanos, torna-a um juízo de valor. Neste caso, uma coisa má. Porém, a esmagadora maioria dos alunos considerou-a um juízo de facto. O que, vendo bem, acaba também por ser, instalando alguma confusão. Vejamos as frases «Os legumes fazem bem à saúde», «O leite ajuda as crianças a crescer», «o pacemaker salva a vida milhares de doentes cardíacos». São frases tão descritivas, objectivas e nada dependendo de perspectivas pessoais como a frase «o leite tem cálcio». Dizer que o leite ajuda a crescer resulta de uma relação de causalidade entre o leite (causa) e o crescimento (efeito) como a que existe entre os 100ºC e o estado de ebulição da água ou a queda de um corpo em função da gravidade. Mas será que conseguimos olhar para ela da mesma maneira? Muito bem: dizer que «o leite faz bem à saúde enquanto o cianeto é um veneno mortal», é objectivo e factual. Definir «saúde» é objectivo e factual; definir as propriedades do leite é objectivo e factual; o que faz com que o registo do impacto do leite na saúde humana seja também objectivo e factual. Mas, por outro lado, algum ser humano consegue olhar para a frase sem a associar a um valor? Alguém consegue ler essa frase do mesmo modo que lê «Lisboa é a capital de Portugal» ou «O Porto é banhado pelo rio Douro»? Não, porque a saúde é, consensualmente (objectivamente), considerada um bem, transformando assim um facto objectivo num valor também objectivo. É verdade que nem toda a realidade é assim tão linear. Dizer que «existem touradas de morte em Espanha» é capaz de ter um sentido meramente factual para um chinês. Mas que impacto terá na cabeça de um defensor dos direitos dos animais? Ou, em sentido contrário, na cabeça de um aficionado das touradas, capaz de ir a Espanha só para ver, e vibrar, com uma tourada espanhola? Neste caso, estamos perante a maior das confusões uma vez que se trata de um juízo de facto mas que também pode ser de valor e, como se isso não bastasse, tanto negativo como positivo. Mas há muitos casos em que as juízos de facto e de valor coincidem na sua objectividade.

É o caso do terrorismo. Em rigor, a palavra «terrorista» tem um sentido meramente factual. É como definir cianeto. O que é um terrorista? Um tipo que, fora de um contexto formal de guerra, pratica acções que visam causar danos materiais e humanos (ferir ou matar) em nome de uma causa. É por isso que um alemão que mata um americano em 1945, em Calais, ou um republicano que mata um falangista em 1936, em Espanha, não são terroristas. Ou, por muito hediondo que tenha sido o que fez, não foi terrorista o piloto do Enola Gay. Mas um militante do ISIS que cometa um atentado em Paris, Londres, NY ou Madrid é, objectivamente, um terrorista. É como dizer que «este pó é cianeto e mata quem o ingerir». Posto isto, é óbvio que a palavra ou o conceito de «terrorista» ganha um sentido pejorativo. Mas ganha-o precisamente pelo seu sentido objectivo. Ok, poder-se-á dizer que para certos muçulmanos um suicida do ISIS que mata cem pessoas que apenas estão a fazer a sua vida normal, não é um terrorista. Problema dele. Certamente que o facto de para um nazi, em 1945, uma cápsula de cianeto ser um bem, não nos permite dizer que considerar o cianeto um bem ou um mal, passa a ser subjectivo. Sendo assim, seremos também obrigados a dizer que o valor de matar ou roubar é subjectivo uma vez que há pessoas que adoram matar e roubar. Uma parvoíce sem sentido. 

Um terrorista é aquilo que é. O que depois se passa na cabeça das pessoas é lá com elas, se bem que haja naturalmente um consenso em relação a isso. E mesmo que certos muçulmanos não considerem um mártir um terrorista isso não é motivo para não o ser. Daí não compreender este excesso de zelo jornalístico da BBC. Acho muito bem que a estação inglesa deseje ser o mais isenta e rigorosa possível. É essa a obrigação de um bom jornalista. Mas, neste caso, não tem qualquer razão em querer evitar usar a palavra «terrorista». O seu desejo de não tomar partido, tornando-se num observador neutro, não pode ser de tal modo obsessivo que leve a ficar-se cego perante a realidade. E o que a realidade mostra, neste caso, de um modo cru, frio, objectivo e neutro, são terroristas na mais plena acepção da palavra.