12 dezembro, 2015

PUBLICAÇÃO EUROPA-AMÉRICA

Joe Shere| Sophia Loren e Jayne Mansfield no restaurante Romanoff’s, Beverly Hills, 1958

Os Estados Unidos da América são um produto laboratorial europeu, uma mistura química de línguas europeias, filosofia europeia e religião europeia (apesar de Alexandria ou Antioquia, o cristianismo foi feito e refeito na Europa), e um imenso desejo de liberdade individual, política e económica, desígnio que também mais europeu não poderia ser. Não podemos imaginar os Estados Unidos da América sem a Bíblia mas também sem a filosofia política de Locke ou influências iluministas (basta pensar em Thomas Jefferson ou Thomas Paine) e a relação com a coroa britânica. Os Founding Fathers podem ser isso mesmo, os arquitectos da América, os primeiros americanos ilustres mas, seja lá como for, a Europa está bem entranhada no seu ADN e corre fluida nas suas veias. E a literatura americana o que é, senão uma extensão de idiossincrasias europeias? Salem pode ficar no Massachusetts e Hawthorne ter nascido num 4 de Julho, mas toda a sua obra remete para a Inglaterra profunda. Nós lemos aquilo e bem poderia passar-nos pela cabeça os ventosos montes do Yorkshire. E o que já há de especificamente americano em Poe, Melville ou Dickinson? Thoreau? Como assim, quando os Devaneios de um Caminhante Solitário foram escritos muito antes, no castelo de Ermenonville, bem no coração da Europa? Whitman, Emerson? A Europa do século XIX está cheia de Whitman's e Emerson's.  E se pensarmos em James ou Eliot, essa coisa da América de um lado e da Europa do outro, não cai por terra mas antes mergulhada nas profundezas do Atlântico. 

Deixemos agora a História, a Filosofia Política e a Literatura (com a pintura americana do século XIX não seria diferente) para passarmos a mão pela mais sensível textura da realidade. Apesar das suas raízes, estes indómitos filhos de europeus seguiram o seu próprio percurso. Um percurso tão seu que é perfeitamente possível pensar na Europa e na América como dois mundos completamente diferentes, apesar de vários aspectos comuns poderem obnubilar ou disfarçar tais diferenças. É verdade que se pusermos um europeu e um americano no Paquistão, na Nova Guiné ou no Iémen, não se dá pela diferença entre eles. Mas, como diria o outro, se na Europa cada nativo se sente português, espanhol, francês, italiano, alemão, sueco, russo ou grego, na América, todos eles se sentirão europeus. Esta fotografia ajuda a perceber todo o sentido da frase «Uma imagem vale mais do que mil palavras». Mais palavras para quê? Revela-se aqui toda a diferença entre ethos americano e o ethos europeu. O imperialismo americano dificilmente será destronado e a Europa irá continuar a assistir, meio pávida, meio serena, ao espectáculo do mundo num palco cujo holofote continua bem agarrado pela mão de uma mulher francesa mas que ali ficou para sempre, bem junto à ilha de Mannhattan, para dar as boas vindas a todos os espectadores que se irão sentar na plateia.