20 dezembro, 2015

POÉTICA DA MORTE

Heny Peach Robinson | Fading Away, 1858


Dizia eu que apesar de não acreditar em milagres, gosto de uma poética dos milagres. Enquanto ser racional lido mal com o assunto, mas acho-os fascinantes enquanto exercícios de imaginação, sobretudo nas culturas gregas e judaico-cristã, não só literariamente mas também no modo como surgem em muitas obras-primas da pintura europeia. O mesmo se passa com a morte. A morte, apesar de repelente, também pode ser poética. Mas cá está, enquanto exercício estético, não enquanto facto reduzido à sua fria condição empírica. Um cientista pode dizer que a morte é o que há de mais natural num ser vivo; um demógrafo, cinicamente, atirar à cara que convém mesmo que as pessoas morram; um filósofo pode vir dizer que o homem é um ser-para-a-morte. Seja como for, a morte será sempre a coisa mais estúpida e cruel que acontece na vida de uma pessoa. Mas isso quando morre mesmo, a sério, uma pessoa que está mesmo viva. Já na arte tudo se torna diferente.  Veja-se esta passagem de As Anotações de Malte Laurids Brigge

«Garantiram-me que ela ficara assim só depois da morte terrível da irmã, a condessa Ölegaard Skeel, que morreu queimada por ter querido, antes de um baile, compor as flores que levava no cabelo diante de um espelho de candelabros». 

Meu deus, isto é avassaladoramente, esmagadoramente belo. Mas, ao mesmo tempo, esmagadoramente dramático. Bem podiam estas palavras de sublime beleza literária metamorfosearem-se em imagens para dar origem a um quadro de Munch ou de Böcklin, ou em imagens e música para surgirem num daqueles momentos mágicos dos filmes de Tarkovski: uma casa de madeira num bosque russo ladeado por um silencioso lago, pintado por um sombrio lusco-fusco de Outono que, de repente, é iluminado pelo cabelo de uma mulher a arder. Um belo horrendo que, transferido para o mundo real, perderia a sua face bela para ficar apenas reduzido ao horrível, ao macabro, ao sinistro. Mais, e pior do que isso, transformado em notícia de jornal poderia mesmo assumir uma faceta quase cómica, inspirando uma cena de uma daquelas parvas comédias americanas. 

Eu lembro-me de estudar Alexandre Herculano no Liceu e de gostar de poemas como A Cruz Mutilada, de imaginar o silêncio do presbitério, o luar, o pinhal, o mocho, o granito. E do prazer que foi ter mais tarde descoberto a poesia de Maria Browne (cujo salão literário, no Porto, foi frequentado por Camilo) ou de Soares de Passos, cujo O Noivado do Sepulcro continua a ser de uma beleza estonteante. Daí que, sempre que posso, e se justifica, visite cemitérios. Adoro cemitérios, sinto-me feliz dentro de um cemitério. Não aqueles pindéricos e sem gracinha nenhuma onde se vai apenas uma vez por ano para deixar umas flores e uma velinha, mas aqueles que o sentido estético de artistas e arquitectos e desse grande escultor que é o tempo, tornou nos sítios mais recomendáveis para passar um par de horas de absoluta serenidade e como um festim para os sentidos. 

Serei um depressivo, um suicida com pensamentos mórbidos, um desequilibrado mental que fez um pacto com o sobrenatural para fazer da morte um projecto de vida? Nada disso. Eu cá, gosto, e muito, das coisas boas da vida e  quem me dera por cá andar muitos anos para as aproveitar. Implica isso esquecer a morte ou então, num registo oposto, vivê-la com uma morbidez barroca, assumindo o seu pornográfico horror? Não. Ter uma relação poética e serena com a morte, mesmo que impressionados ou chocados com a dor da sua presença será sempre um hino à vida que consegue purificar as emoções mais básicas e frenéticas da existência. Claro que se pode varrer a morte para debaixo do tapete e viver a a vida feliz sem pensar nela. Nada tem de errado isso, é até bastante saudável. Há mesmo pessoas que só gostam de teatro de revista ou de ouvir sessões contínuas de anedotas e ficar com dores de barriga de tanto rir. Também não tem mal nenhum. Penso sempre no casal da criadagem dos Sorrisos de uma Noite de Verão, de Bergman, e no quanto felizes eles são.

Mas há quem goste da beleza das coisas tristes sem que isso implique ser uma pessoa triste, tal como um apreciador de filmes de terror não tem de andar a dar dentadas em pescoços e um apreciador de filmes com serial killers não tem de gostar da ideia de crime na vida real. É uma forma superior de beleza? Nada disso, é apenas mais uma forma de beleza, nem mais nem menos legítima do que outra qualquer. Mas só sabe o que se ganha com ela com quem ela gosta de viver.