11 dezembro, 2015

O JOELHO SEM CLAIRE


Éric Rohmer | O Joelho de Claire [fotograma]

Faleceu Maria Eugénia Cunhal, irmã de Álvaro Cunhal. Duas pessoas de uma geração de comunistas em vias de extinção. Vale a pena ler esta sua entrevista sobretudo pela última frase, quando afirma não gostar da palavra «seduzir». Ainda que aqui dita num contexto político, faz todo o sentido que um comunista (refiro-me aos  velhos e verdadeiros comunistas) não gostasse da palavra seduzir. 

Seduzir exige um abandono face ao mundo social e político, um esprit de finesse que enclausura o sujeito nas masmorras do seu próprio prazer. Uma atracção pelo perigo, não o perigo da prisão política, do exílio, da tortura, mas o perigo de uma outra tortura: a tortura da sua própria perdição. Seduzir soa demasiado burguês para um comunista. É muito pouco Einsenstein, muito pouco Gorki, muito pouco Esteiros e Engrenagem. Seduzir é mais filme francês, mais Rohmer, petite histoire, muito mão-no joelho enquanto expressão de uma discreta e silenciosa intimidade. Os verdadeiros comunistas preferiam as grandes narrativas mitológicas, a gloriosa e sacrificial epopeia rumo a uma sociedade sem classes, assumindo o seu papel como protagonistas e agentes responsáveis do processo histórico ao serviço das grande massas, dependente da consciência e acção revolucionárias. 


Não quer isto dizer que um velho comunista não gostasse de sexo ou não sentisse uma pulsão erótica Mas isso não passa de um pormenor. Mais do que o joelho de Claire, a mão do velho comunista procurava o pulso da História. Como se fosse um cardiologista social de estetoscópio ao pescoço, mais preocupado com a gravidade dos batimentos cardíacos de uma abstracção ideológica ou filosófica, do que com a supérflua condição material desse redondo osso feito para a delicada concavidade da mão masculina. Um verdadeiro comunista, como Álvaro ou Eugénia, fanáticos do combate revolucionário, olharia sempre para o desejo e sedução como mácula original que elege o joelho como centro do universo, em vez da luta de classes, a sociedade sem classes, o fim da história, o luminoso esplendor operário-camponês. A mão no joelho é a mão de um indivíduo no joelho de outro indivíduo, um toque de cega ou hipnótica sedução completamente à margem do palco histórico em cima do qual intervêm dialecticamente os verdadeiros protagonistas. Mão no joelho que sobrepõe a voluptuosa subjectividade da mão à crua objectividade de um projecto social, político e económico. Para o comunista de outrora, a sua mão não passava de um mero instrumento na construção de uma sociedade onde os joelhos são todos iguais. O mesmo é dizer, de uma sociedade sem joelhos, porque um joelho é apenas um joelho, uma ilha ortopédica, rodeada de carne, veias, tendões e músculos por todos os lados. Nunca o joelho de Claire.