09 dezembro, 2015

O DINHEIRO LIBERTA


As crianças não pensam na felicidade, não se preocupam com a felicidade, não têm angústias existenciais por causa da felicidade e infelicidade. O que as crianças querem é chocolates, brinquedos, jogar ou serem protegidas pelos pais. A felicidade é por isso uma abstracção que lhes passa completamente ao lado, pois a sua vida enquanto crianças, sendo ou não felizes, passa completamente ao lado do problema da quantificação da felicidade ou do sentido da felicidade. Creio que se passa o mesmo com a generalidade das pessoas em relação à liberdade política, a liberdade de poder exprimir publicamente ideias ou de eleger os seus representantes políticos. Ao contrário da liberdade pessoal e de movimentos ou da liberdade religiosa, essas, sim, importantes.

A maior parte não tem uma especial dedicação à liberdade. Não sofre especialmente com a falta dela, nem está motivada para lutar por ela quando não existe. Faz sentido. Só se preocupa com a livre expressão de ideias quem tem ideias para exprimir. Acontece que o povo não tem ideias nem anda à procura delas. O povo preocupa-se, sim, com a vida material e a segurança. O amor e luta pela liberdade é um privilegiado desígnio de intelectuais e gente culta (ou ainda de pessoas com ambição política e que precisam dessa liberdade para atingir os seus objectivos pessoais) que gosta de exprimir ideias e de acompanhar as ideias dos outros, livros, filmes ou músicas, sofrendo assim com a censura, sobretudo com o tipo de ideias, livros, cinema ou música dentro do seu registo ideológico e político. 

Já o povo não lê nem vê filmes ou exposições dignos de serem censurados. Quem em Portugal, antes do 25 de Abril, se preocupava com a liberdade e a democracia, estando disposto a lutar por elas? Quem, no mundo islâmico, se comove com o caso Salman Rushdie, sentindo frustração por não poder ler os seus romances ou por viver num país onde há controlo social e político? Quando, no 25 de Abril, o povo vem festejar para a rua, quando cai um muro em Berlim, quando há primaveras árabes ou manifestações em qualquer país do Terceiro-Mundo sob ditadura ou uma democracia musculada, não é por causa da liberdade mas porque espera viver melhor, ter melhores condições de vida. O povo quer trabalho, dinheiro, saúde, família e divertir-se de várias maneiras conforme os gostos e os estilos. Panis et circensis, como diria o velho Juvenal. A liberdade é um luxo dispensável e que não tira o sono a ninguém. A liberdade pode achar que guia o povo, mas o povo não se sente propriamente guiado pela liberdade. Isso não passa de um romântico preconceito. Se tiver que escolher entre o pão e a liberdade de votar em partidos, entre o dinheiro, o bem-estar e a liberdade de expressão política e ideológica, o povo escolhe o pão, o dinheiro e o bem-estar. Se perguntarem a um operário da construção civil se prefere emigrar para uma ditadura onde irá viver o resto da sua vida, a ganhar 2000 euros por mês ou para uma democracia liberal a ganhar  1500 euros por mês, a escolha irá ser clara. O povo do quadro de Delacroix não marcha pela liberdade. Marcha na esperança de encontrar quem lhe pague mais.