22 dezembro, 2015

NATAL DOS HOSPITAIS


Quais são as imagens mais sinistras que associamos àquele efémero, mas vulcânico, momento histórico em que o nazismo marcou a sua presença no mundo? Os campos de concentração, claro, com as suas câmaras de gás, ossadas amontoadas em valas comuns, pessoas dentro de comboios como gado. Mas também os outros milhões de mortos, dos Urais às praias da Normandia, cidades destruídas com os seus milhões de desalojados, feridos, estropiados, traumatizados, desempregados, de crianças sem eira nem beira que perderam as suas famílias, tudo isso graças a um projecto político e civilizacional demente.

Já de um ponto de vista mais filosófico, não tenho ideia de ver imagem tão pessimista e negativa como esta: uma festa de natal nazi com a besta imunda tendo por detrás uma enfeitada árvore de Natal. Nada que choque o olhar, bem pelo contrário, chega a ser apaziguador ver gente tão pérfida associada a natalícios valores como a concórdia, paz, harmonia (ver mais aqui). É por isso que se trata de um murro no estômago. À primeira vista o que se vê aqui é uma mensagem de esperança: apesar das diferenças abissais entre seres humanos, há valores que todos podemos partilhar, a começar por esse supremo momento de reconciliação que é o Natal. 

Mas é precisamente aqui que uma sombra antropológica, uma mácula radical começa a sobrevoar a nossa comum natureza humana. Mesmo quando partilhamos valores comuns, pouco comum pode ser o que estamos a partilhar. Existe alguém que não valorize a justiça ou o bem? Não, toda a gente. O problema é quando começamos a ver pessoas completamente diferentes a falar em nome da justiça e do bem. Ora, tal acontece porque, nascendo todos iguais, desde logo as diferenças se fazem sentir, e diferenças radicalmente incompatíveis. No fundo, esta mácula radical ou original acaba por ser o ganha-pão da Filosofia. Morte, doenças, acidentes de automóvel, conflitos pessoais são coisas más. Mas estas coisas más são o ganha-pão de médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, farmácias, agências funerárias, bate-chapas, mecânicos e advogados. Muita gente a viver à pala do negativo. O mesmo acontece com a filosofia. Veja-se o seguinte argumento:

Matar um ser humano é crime. Um feto é um ser humano. Logo, matar um feto ( fazer um aborto) é crime.

Limpo, sem espinhas, formalmente perfeito. O problema começa com a definição de ser humano. Há quem considere que o aborto é um crime porque um feto é um ser humano. Porém, muitas pessoas, e pessoas normais, boas pessoas até, consideram que o aborto não é um crime porque um feto não é ainda um ser humano. O que é um feto, o que faz um feto, como reage um feto diz-nos a ciência. Mas o que define um ser humano, qual a sua essência, quais as condições suficientes ou necessárias para ser humano? Eis finalmente a Filosofia a fazer a sua entrada triunfal, mas ao mesmo tempo falhada, no palco do conhecimento. A razão humana tem o dom de não conseguir deixar de colocar problemas que ela própria não consegue resolver, dizia Kant. O mesmo Kant que dizia ser o Homem feito de um lenho tão retorcido do qual jamais nada de direito se fará.

É por isso que esta imagem, não tendo nada que choque o olhar, acaba por ser filosoficamente trágica, uma vez que reflecte a tragédia inscrita no código genético da própria filosofia como se esta sofresse o destino de Tântalo ou de Sísifo. A razão humana não consegue deixar de colocar problemas que ela própria não consegue resolver. É como estarmos condenados a viver com os lábios a centímetros da água mas sem a podermos beber. Morremos de sede e não a podemos beber, vivendo a Filosofia à pala da própria impossibilidade da razão para resolver certos problemas que sempre assolarão a humanidade.

Como resolver filosoficamente esta coisa de ver Hitler a comemorar o Natal, de o ver tão cândido debaixo de uma árvore de Natal, o mesmo Hitler que adorava animais e crianças? Ok, a Psicologia pode ajudar a explicar muita coisa, mas a Filosofia não é Psicologia. A Filosofia quer mesmo resolver o problema dos valores, não saber apenas o que são mas como entendê-los na vida comum das pessoas. Mas como? Natal pode ser quando um homem quiser mas também o que um homem quiser. E este Natal de Hitler é o Natal de Hitler, o Natal que ele quer que seja. Sempre foi assim e assim vai continuar sempre a ser. Uma doença antropológica que nunca terá cura enquanto o ser humano for o que sempre foi.