26 dezembro, 2015

GÁS NATURAL

Roman Vishniac | Mukacevo, anos 30

Fartei-me de andar à boleia quando era jovem. Era mesmo um modo de vida e tive desde boleias só para andar meia dúzia de quilómetros, até boleias épicas e dramáticas das quais nunca me irei esquecer. Uma das coisas de que me lembro desse tempo era pensar que um dia em que fosse eu a ser automobilista, iria dar boleia a toda a gente que parecesse ser de confiança. Esse dia aconteceu ontem e precisamente num sítio onde estive dezenas de vezes à boleia. Um jovem, sozinho, certamente estudante, com aquele ar de bom selvagem que acaba de chegar da Festa do Avante, não um psicopata perigoso que se divirta a torturar pessoas em caves obscuras. Como vou devagar, tenho tempo para avaliar a situação e perceber que não há razões para não oferecer boleia ao rapaz. Sinto um impulso para travar mas, chegado o momento decisivo, desisto e sigo viagem. Porquê?

Medo. Não aquele medo que se sente perante uma víbora aos nossos pés ou perante um tipo que nos encosta uma faca às costas. Antes um medo vago e abstracto. O medo de ter, de repente, dentro do meu carro, um desconhecido. E embora se tratasse de alguém que nada me fazia associar a ameaça ou perigo, esse medo vago e abstracto sobrepôs-se aos mecanismos racionais e conscientes que poderiam levar-me à decisão contrária: parar o carro para ele entrar, fazendo a minha boa acção do dia.

Não sei se é uma coisa deste tipo que acontece quando, através da manipulação e propaganda, se incutem sentimentos de medo e rejeição face a pessoas ou grupos sociais perante os quais não temos motivos conscientes e plausíveis para temer e evitar. Manipulação e propaganda que conseguem transformar pessoas normais em pessoas perigosas. Manipulação e propaganda que estimulam um clima de desconfiança relativamente a pessoas perante as quais nada teríamos a recear. Grande parte dos judeus que morreram nos campos de concentração, judeus cujas lojas foram antes destruídas ou judeus que passaram a ser evitados pela restante população, eram pessoas socialmente integradas nos bairros, nas escolas, no comércio. E quem diz a Alemanha dos anos 30, diz também a Bósnia dos anos 80, antes da guerra civil. O que acontece, então, para chegarmos onde por vezes chegamos? Medo, sim, mas não se trata de ter medo de alguém de quem sabemos que não nos vai fazer mal. Apenas um medo que inibe, cria resistências, e nos impele, não para o outro, mas em fuga uma do outro. Sorrateiramente, como um gás que, na nossa consciência, sem nos apercebermos, nos vai lentamente, levemente e invisivelmente adormecendo, suspendendo os nossos naturais mecanismos morais e gregários. Até um ponto em que, por que nos tornámos tão ensonados, indolentes e preguiçosos, dizer não é naturalmente mais fácil do que dizer sim.