21 dezembro, 2015

ESPÍRITO CRÍTICO

Elliot Erwitt | Homens Lutando, NY, 1950

Dizia um americano comum, a respeito da Guerra Civil Americana, que nenhum dos lados estava certo ou errado, uma vez que ambos lutavam por aquilo em que acreditavam. Tem muito que se lhe diga esta coisa de enaltecer pessoas que lutam por aquilo em que acreditam, pela sua coerência ou pela força das suas convicções, como se isso lhes desse uma espécie de superioridade moral, mesmo quando situadas no campo oposto de quem elogia. Quantas vezes já ouvi «Não concordava nada com as suas ideias mas admirava-o e respeitava-o pelo modo como lutava por aquilo em que acreditava e pela coerência revelada ao longo de toda a sua vida»? 

Muito bem. Dois tipos lutam ferozmente entre si. Um, porque acredita que a Terra é redonda, o outro porque acredita que a Terra é quadrada. Como ambos lutam por aquilo em que acreditam, não se pode dizer que um esteja certo e o outro errado, sendo irrelevante o facto de a Terra ser redonda ou quadrada. E mais: ambos são elogiados pela força das suas convicções e lutarem por elas. Faz algum sentido? Não, trata-se de um enorme disparate. Não se pode dizer que uma pessoa tem a sua verdade, sendo elogiada pela convicção a respeito dessa verdade e por lutar por essa verdade, quando essa verdade não existe. Mesmo dando o desconto por estarmos perante seres humanos comuns e não um congresso de lógicos e de matemáticos concentrados na resolução de problemas difíceis, e sabendo que, quando assim é, importa mais a força da crença do que a verdade e a falsidade daquilo em que se acredita, devemos ser mais prudentes. Se há ideias que são apenas inofensivas ou parvas, outras há que, sendo perigosas, merecem ser postas no seu lugar: uma incineradora de ideias e crenças que deve existir na cabeça de qualquer ser humano que se preze. Admirar e elogiar pessoas que acreditam e lutam convictamente por ideias que merecem a incineradora é tão perigoso quanto essas ideias pois passam a ter um público que convive bovinamente com elas. E eu, que até adoro ver mimosas vaquinhas a pastar num viçoso prado verde, acredito que vacas e seres racionais devem ocupar posições diferentes no mundo. E qual o valor da coerência quando se trata de manter ideias perigosas, ideias que ameaçam as vidas das pessoas? O que a humanidade teria ganho se homens como Hitler ou Estaline tivessem deixado de ser coerentes, contribuindo, com a sua capacidade de liderança e mobilização, para tornar o mundo melhor. 

Dir-se-á que crenças subjectivas não é a mesma coisa que discutir se a Terra é redonda ou quadrada. A forma da Terra não se discute, sendo fácil separar a verdade do erro. Ao contrário das crenças subjectivas que são, ipso facto, discutíveis e, como tal, merecem ser respeitadas. Certo? Não, errado. Nem certas ideias merecem ser respeitadas e admiradas nem quem as defende e luta por elas. Não mandamos (felizmente) nas crenças dos outros. Mas devemos mandar nas nossas. Uma pessoa tem todo o direito de ter uma crença estúpida. Mas os outros também têm todo o direito de acreditar na estupidez dessa crença, na estupidez da sua convicção em relação a uma crença estúpida e na estupidez de lutar por essa convicção. Chama-se a isto espírito crítico.