28 dezembro, 2015

COUNTRY WITHOUT DOCTOR

Eugene Smith | Série Country Doctor, 1948

«A society's attitude to disease reveals more than the state of its medical knowledge. Victorian England, destined to become so densely populous, so politically powerful throughout the world, so dirty and so rich, poured much of its paranoia and its ambivalence concerning Mammon-worship into its feelings about cholera». A. N. Wilson, The Victorians

«There is no wealth but life», John Ruskin, Unto this Last

Chegados a adultos, deixamos de ter medo do escuro e de mil outros medos infantis. Mas continuamos a ter medo da morte, doenças, incapacidades, dos muitos infortúnios vindos sabe-se lá de onde. Daí que, embora já não precisemos de pai ou mãe para enfrentar os fantasmas infantis, dê muito jeito um Deus no céu a zelar por nós. Enfim, um verdadeiro pai, tal como é, de facto, representado na religião judaico-cristã.  É mais ou menos deste modo projectivo que Freud, já na fase final da sua vida, explica a necessidade de acreditar em Deus.

Não vou aqui discutir a sua explicação. Apenas me interessa agarrar a deixa da nossa intrínseca falta de auto-suficiência. Numa obra chamada Política, explica Aristóteles que o Estado/Sociedade surge de um modo natural e espontâneo para colmatar a nossa falta de auto-suficiência. Um tipo sabe arrancar dentes mas não arranjar o motor do automóvel; um outro que sabe arranjar o motor de um automóvel não sabe arrancar dentes. Juntando-se, resolvem as suas insuficiências. Podendo-se acrescentar médicos, cabeleireiras, cozinheiros, camionistas, engenheiros ou até mesmo, por mais incrível que pareça, políticos. 

Muito bem. Mas o Estado é uma realidade política bem mais complexa do que a natural e espontânea ligação entre indivíduos. Uma estrutura cujas leis e instituições (aquilo a que Hegel chamava Espírito Objectivo) não devem ter apenas um valor funcional mas também moral. O Estado não é uma máquina fria e impessoal, deve igualmente servir para proteger os cidadãos que dela fazem parte, nos aspectos onde se se sentem mais frágeis. Isto está longe de pressupor o que aconteceu com os projectos comunistas que, como uma mãe galinha, quiseram proteger tanto, tanto, tanto os indivíduos, que acabaram por os oprimir e atrofiar. Pressupõe apenas uma espécie de contrato tácito entre os cidadãos, aceitando que o dinheiro de todos possa contribuir para ajudar cada um onde esteja mais fragilizado por circunstâncias pelas quais não é responsável, como é o caso das doenças.

A doença é, sem dúvida, a mais sensível de todas as dimensões humanas. A que mais fragiliza, a que mais facilmente anula a desejada normalidade, a que mais impede de alcançar a felicidade enquanto fim natural. Já não temos idade para pedir pai ou mãe à beira da cama em noites de febre e pesadelos, mas precisamos na mesma de quem cuide de nós. Porém, sem retirar o valor assistencial a figuras como Florence Nightingale, John Ruskin ou William e Catherine Booth, devemos ser mais exigentes e incumbir o Estado de tratar bem os seus cidadãos, sem que estes se sintam um empecilho. Pensar no Estado personificado na figura do dr Ernest Ceriani, o médico tão fotografado por Eugene Smith, que, por caminhos difíceis e em condições tantas vezes adversas, mostrou sempre solicitude para com os doentes que dele precisavam. Infelizmente, não deixa de ser inquietante olhar para a Inglaterra vitoriana e ficar com vontade de escrever sobre o Portugal de 2015, onde ainda há pessoas que morrem por falta de médico.