10 dezembro, 2015

CIRCENSE

James Ensor | Auto-Retrato

Ontem, bem cedo de manhã, estava a alinhavar o post que viria a publicar ao fim da tarde. Entretanto, quis escrever em Latim a famosa frase de Juvenal «Pão e Circo», por achar que ficaria mais giro e porque fica sempre bem dar um toque de erudição clássica. Acontece que, apesar da putativa erudição, nada sei de Latim. Lá googlei, ou seja, recorrer à enciclopédia dos pobres de espírito, classe onde me insiro, em busca da vetusta frase. Todavia, fiquei atolado no miserável estado de ignorância em que já me encontrava, uma vez que fui dar com várias expressões diferentes, ficando como boi a olhar para vários palácios, sem saber qual deles seria o verdadeiro. Resolvi assim deixar a frase em Português, ganhando em segurança na língua de Camões o que perdia em erudição na língua de Juvenal, já agora, bem afiada. 

Como ainda não tinha concluído o texto, deixei-o a marinar e lá fui para a escola dar as minhas aulas. Quando regresso, a pé, para casa, quem encontro eu ali ao pé do Modelo? Um professor de Latim já reformado, ex-padre, que não via há imenso tempo. Pensei, e disse-lhe, que foi Deus que mo enviou, o que suscitou uma gargalhada, mais de ex-padre do que de padre. Lá me explicou então a terceira declinação, mais que o singular é circensis e que o plural é circenses, mais não sei o quê de que não percebi nada. Ainda atordoado com o que tinha acabado de acontecer, e tentando voltar à vida normal das pessoas normais, segui até casa. 

Por pouco tempo pois teria de levar a minha filha ao comboio, tendo ainda que passar de novo no Modelo, desta vez por dentro, para fazer compras. Estou eu a meter um cacho de bananas no saco de plástico, quando sinto uma palmada nas costas e um sorridente emoldurado por uma barbicha velha conhecida. Era o meu professor de Português do Liceu, bem latinado pela Universidade de Salamanca. Neste momento já começara a pensar na forte possibilidade de haver algum Deus ex machina a querer levar-me ao colo para algum lado. Lá lhe contei o que tinha acontecido pouco antes com o seu colega latinista a respeito da frase de Juvenal e lá me instruí de novo com a cantilena da terceira declinação mais o singular circensis e o plural circenses, para além de outras distinções entre o Grego e o Latim, enquanto eu, com as bananas na mão, já via o meu filho a chegar a casa e eu sem almoço para lhe dar. 

Horas depois, antes de jantar, já depois de ter publicado o post no blogue, sento-me com um livro de José Rodrigues Miguéis que tenho há 30 anos, chamado O Espelho Poliédrico. Eu não sei há quantos anos não pegava no José Rodrigues Miguéis, nem faço ideia por que razão me deu para puxar da estante este livro e não outro. Foi este e pronto. E como não se trata de um romance mas de um livro de memórias, aforismos, textos dispersos, leio ao acaso dois ou três textos, até que chego a um onde... ele recorda a sua perplexidade por causa de duas coincidências brutais que lhe aconteceram num curto espaço de tempo. 

Mas não é tudo. Voltando atrás, ao almoço, contei ao meu filho o que se tinha passado com os meus dois encontros. Ele achou piada (coitado, ele bem tenta achar piada ao que eu digo), ajudando também à festa, dizendo que no livro do Paul Auster que anda a ler (ouvir dizer «Paul Auster» neste contexto fez-me sentir um estremecimento interior), O Livro das Ilusões, para tentar visualizar mentalmente uma certa personagem, associou-a, pelo seu aspecto físico, ao seu treinador. Só que de fato vestido, uma vez que a personagem é descrita como vestindo de um modo formal. Acontece, disse ele, que apenas conhecia o treinador de fato de treino, tendo que fazer algum esforço para para o imaginar de fato. Rematou, contando então que pouco depois de tal acontecer, encontrou o treinador na rua, pela primeira vez vestido de fato.

Deus joga aos dados? Que ideia mais parva. Deus não passa de um encenador sacana que, como bem sabia Espinosa, o velho filósofo holandês do século XVII, sabe bem aquilo que faz porque preso na sua própria teia. Cada um tem o circo que merece e ontem tive bem a minha dose enquanto palhaço de serviço.