27 dezembro, 2015

CHEESE!


«O riso é a fraqueza, a corrupção, a sensaboria da nossa carne. É o folguedo para o camponês, a licença para o avinhado, mesma a igreja, na sua sabedoria concedeu o momento da festa, do carnaval, da feira, desta poluição diurna que descarrega os humores e entrava outros desejos e outras ambições... Mas assim o riso permanece coisa vil, defesa para os simples, mistérios desconsagrados para a plebe» Umberto Eco, O Nome da Rosa [Jorge de Burgos para Guilherme de Baskerville]

Gosto muito de ver alunos a apresentar dúvidas, a dizerem-me que não perceberam isto ou aquilo para eu poder explicar melhor. Havendo sempre alunos tímidos, daqueles que gostam de passar despercebidos no seu cantinho, insisto bastante nesse aspecto. Mas há uma razão acrescida para compreender melhor a sua desconfortável situação. Sendo eu próprio uma pessoa insegura, tenho muitas vezes medo de fazer uma triste figura, dizendo algum disparate ou mostrando não perceber alguma coisa que já toda a gente percebeu há séculos.

Eis a razão por que hesitei bastante antes de revelar a minha profunda estupefacção perante o facto de o Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque transformar uma coisa tão banal como o ar sombrio das personagens desta Natividade de Gerard David numa vexata quaestio. Explica o museu que não estarem felizes e contentes num momento tão especial se deve ao facto de já terem a consciência do terrível sacrifício do menino Jesus, ali candidamente deitado, anos depois, já homem, na cruz. Quando li isto o que me veio logo à cabeça foi perguntar o que perguntou a si próprio um conhecido homem da boémia portuense quando, em 1921, à saída do salão onde tinha acabado de ver a exposição de Amadeo Sousa Cardoso, perguntou «Estarei bêbado?». Não estando bêbado, activei desde logo o plano B, onde toda a minha insegurança vem ao de cima, perguntando se estarei a não perceber o que toda a gente já percebeu, se o facto de não ser um historiador de arte e de arte pouco perceber, estará a toldar-me o juízo, no limite, acabei mesmo por perguntar se a minha surpresa não passa de um sintoma da minha habitual estupidez que, mais uma vez, apre!, não consigo evitar.

Acontece, porém, que posso ser estúpido e limitado mas tenho olhos para ver. E os olhos são como o algodão: não enganam. E o que os olhos me mostram são raros sorrisos ao longo de toda a história da pintura. Da religiosa, que é grande parte dela, nem se fala. O que é normal, já que o sagrado, o tremendo mistério, os milagres, as hierofanias, mais do que risos e alegria, pede respeito, veneração, circunspecção, deleite interior, apelo à espiritualidade, reserva emocional (sobretudo riso). Onde vemos riso na pintura? Tardiamente, em bobos, bêbados, gente rude ou de comportamento moralmente duvidoso, ambientes populares. Ou, em retratos, todavia, raros. E por falar em retratos, desta vez já fotográficos, quantas pessoas vemos a rir quando fotografadas no século XIX ou no início do século XX? Será que para o Metropolitan estarão todas a pensar na morte, ou seja, estão felizes e contentes mas quando se trata de esperar pelo passarinho para serem fotografadas, o que lhes vem à cabeça é logo a futura tuberculose, a sífilis, o tiro no peito, enfim, o sinistro caixão que os transportará para a soterrada eternidade?

Estará o Metropolitan Museum of Art a ser influenciado pela moderníssima e historicamente recente moda de rir para a fotografia? Estará a ser subjugado pela tirania do riso no retrato contemporâneo, pelas selfies com a língua de fora, caretas, expressões disformes ou de indigência, a lembrar, de facto, algumas figuras de Hals, Goya ou Ensor? Não quero acreditar em hipótese tão absurda mas, na verdade, pouco me resta. Ou melhor, resta-me apenas assumir e partilhar a minha estupidez, as minhas limitações, em suma, a minha triste figura. Não sendo, há muito, um inseguro jovenzinho de liceu, já perdi toda a vergonha.