02 dezembro, 2015

CAMARIM SEM ESTRELA


No seu Meetings with Russian Writers, Isaiah Berlin relata os seus encontros com escritores e intelectuais russos, durante a sua estadia de alguns meses na URSS em 1945, ao serviço dos Serviços de Informação Britânicos. Escritores e intelectuais russos ávidos de contactos com pessoas que viessem do livre Ocidente, onde tudo se lia, se ouvia e dizia. No caso de Isaiah Berlin, com a vantagem de ter o russo como língua materna.

Conversando sobre literatura com a viúva de um grande amigo de Boris Pasternak, assassinado na Grande Purga estalinista, ela pergunta-lhe se Shakespeare, Ibsen e Shaw, ainda eram nomes com grande impacto nos palcos ocidentais. Berlin responde-lhe que apenas Shaw tinha perdido importância mas que Tchekov era ainda muito admirado e representado. E aproveitou para lhe contar que Anna Akhmatova, dias antes, lhe havia confessado não compreender a adoração das pessoas por Tchekov. Dizia-lhe-lhe a grande poeta russa (digo "poeta" por respeito à própria, que detestava a palavra "poetisa") que o universo de Tchekov era monótono, sem chama, que nele o Sol nunca brilhava e não havia espadas que luzissem, que tudo estava coberto por uma horrível e cinzenta neblina. Que o seu universo era um mar de lama com desgraçadas criaturas nele atoladas sem apelo nem agravo. Enfim, que não era a vida mas uma caricatura da vida.

Juro não perceber a objecção de Akhmatova face ao mundo de Tchekov. As razões que ela invoca para não compreender a adoração por Tchekov são precisamente as razões que fazem com que seja um autor adorado. Li há pouco um livro de Juan José Millas, autobiográfico, chamado O Mundo, onde o escritor fala de uma mulher que «chorava com a mesma naturalidade com que se produzem os fenómenos atmosféricos suaves, como aquela chuva que não se vê e se chama molha-tolos porque molha da mesma maneira que a verdadeira». Quando li isto, foi logo do teatro de Tchekov que me lembrei, cujo valor está em conseguir mostrar como ninguém personagens que vivem como se fossem fantasmas, que vivem com desejos que se evaporam no ar, que choram mesmo quando riem, que gemem mesmo quando cantam. Personagens que circulam com a desconfortável sensação de ter roupa molhada ou húmida, mesmo em dias de calor, verdes, céu azul e com pássaros a chilrear alegremente no jardim. O mais estranho ainda, é a própria Akhmatova, ela mesma, autora e personagem de si própria, dar uma tremenda personagem tchekoviana. Talvez fosse isso.