29 dezembro, 2015

A CEGUEIRA DE ACTEÃO


Andava Acteão a caçar quando surpreende Diana a banhar-se nua, na companhia de outras ninfas. Furiosa, a deusa atira-lhe água para cima, transformando-o num veado, numa inocente criatura que perdeu a consciência do bem e do mal, da virtude ou do pecado. É essa metamorfose que se revela nesta bela pintura de Matteo Balducci, trazida à luz do dia no século XVI.

Parece bonito, poético até, uma espécie de promoção existencial, um estado de plena felicidade, mas é precisamente o contrário. Um castigo atroz como pretendia a deusa: mais do que apenas humilhado, Acteão é cinicamente humilhado pois agora que, enquanto animal, ficou completamente livre de ver o corpo nu de Diana, fica também, por esse mesmo facto, impedido de o ver. Um excesso de visibilidade, qual luxúria suprema, que conduz  a um estado de absoluta cegueira, condição paradoxal que torna risível a sua natureza: o que lhe permite ver é precisamente o que o impede de o ver, é por estar impedido de ver que tem agora permissão para ver. Vê porque não vê, não vê porque vê. A luz explicada pelas trevas, as trevas explicadas pela luz.

A nova e trágica condição de Acteão lembra a das crianças cujo destino é o limbo por morrerem antes do baptismo, um cabo dos trabalhos para os teólogos medievais resolverem, dando respostas bem diferentes. Simpática para essas crianças é a hipótese do também simpático, apesar das suas calamidades pessoais, Pedro Abelardo: não existe mais nenhuma condenação para além da mera privação da visão de Deus. Que já não é coisa pouca, de resto. O estado de Acteão, porém, será ainda mais digno de misericórdia. A criança, apesar de não baptizada, nunca chegou a ter consciência do mal nem a consciência de Deus de cuja visão ficou privada. Nasceu inocente e é inocente que ficará eternamente. Acteão, pelo contrário, não estando privado da visão do corpo de Diana, que deseja ver, não o pode ver. Ficasse ele literalmente cego, com as trevas a afastá-lo do corpo de Diana, sentiria o peso de toda a sua miséria. Sofreria, mas sofreria enquanto homem, sentindo a distância que vai da vívida impressão do corpo de Diana oferecia pelos sentidos à ténue memória dessa visão. Do mesmo modo que recordar uma paisagem ou o sabor do chocolate não é a mesma coisa do que ver a paisagem ou comer o chocolate. Mas continua a ser a mesma consciência, apenas com diferentes graus de vividez que, no caso de Acteão, permitiriam manter o seu estatuto de ser humano.

Acteão, porém, na sua desgraçada inocência, nada sofre com isso, não experimenta qualquer dor, a dor que sentiria se tivesse ficado cego mas que todavia iria preferir, como na célebre frase de Faulkner, ao nada em que se tornou. Transformado em veado, numa inocência absoluta, fica como que abandonado numa cega inconsciência, bem mais profunda do que uma cegueira visual. Se a cegueira visual faz o cego continuar tão humano como qualquer outro, a cegueira da consciência exila nos confins da animalidade quem nasceu homem e humano deveria ser o seu destino. E, no caso de Acteão, morre a sua identidade mas mantém-se presente aos seus olhos o que o fez perder essa identidade. É como deixar Francisco Pizarro comer e beber em vasilhas de ouro sem saber o que é o ouro ou Cartier Bresson com uma leica na mão sem saber o que é uma máquina fotográfica. Mais vil, desgraçada e miserável condição não pode haver.