22 novembro, 2015

TÃO NATURAL QUANTO A SUA SEDE


A história enquanto história parece pôr-nos diante do espectáculo deprimente de uma diversidade vergonhosa de pensamentos e crenças e, sobretudo, do desaparecimento sucessivo de todos os pensamentos e crenças que os homens tiveram. Parece mostrar que todo o pensamento humano depende de contextos históricos singulares que são precedidos por contextos mais ou menos diferentes e que surgem dos seus antecessores de um modo fundamentalmente imprevisível: os alicerces do pensamento humano são colocados por experiências ou decisões imprevisíveis. Como todo o pensamento humano pertence a situações históricas específicas, todo o pensamento humano está condenado a desaparecer ao mesmo tempo que a situação a que pertence, e a ser substituído por pensamentos novos e imprevisíveis. [...] A história ensina-nos que uma determinada perspectiva foi abandonada por todos os homens, ou por todos os homens competentes, ou talvez pelos mais vociferantes, em favor de outra perspectiva; não nos diz se a mudança foi justificada ou se a perspectiva rejeitada merecia a rejeição. Só uma análise imparcial da perspectiva em questão - uma análise que não se deslumbre com a vitória ou que não fique aturdida com a derrota dos partidários da perspectiva em causa- nos poderia ensinar algo acerca do seu valor e, assim, acerca do sentido da mudança histórica. Leo Strauss, Direito Natural e História


Imagine-se o quanto estranho seria para uma pessoa do vitoriano século XIX, a ideia de, um século depois, a homossexualidade ser cada vez mais aceite sem pruridos sociais e familiares. Indo mais longe, no quanto já seria bizarro os homossexuais poderem casar. Indo mais longe ainda, e já a roçar o absurdo, poderem adoptar crianças, formando um núcleo familiar como o da família Bellelli pintada por Degas. Provavelmente, iria pensar que se trataria de um qualquer texto póstumo de Swift, Hofmann ou o próximo projecto literário  de Lewis Carrol. Todavia, em Portugal, humilde país católico do sul da Europa, tudo isso se tornou realidade. O que me fez lembrar as palavras de Leo Strauss, ainda que estas se insiram num contexto mais vasto e complexo.

Pensemos na quantidade de pessoas que pelas mais diversas razões, há mais ou há menos tempo, foram mortas, presas ou torturadas, ou simplesmente criticadas e rejeitadas socialmente, só por terem tido a pouca sorte de terem nascido antes de uma época em que até, em muitos casos, seriam bem vistas socialmente precisamente pelo que as fez ser anatematizadas. No quanto injusto é ser condenado, não por ter feito nada de objectivamente errado mas só porque, fruto da mais contingente das contigências, nasceu num dado ano e num dado lugar. Ainda há pouco estive a reler algumas passagens de A Letra Escarlate, e fica-se em choque com a vida daquela mulher naquela comunidade da Nova Inglaterra.

Faz por isso todo o sentido o desafio de Strauss: pensar no que pode ser verdadeiro ou falso, independentemente da direcção para que sopra o vento histórico que nos faz ter certas crenças e pensamentos. Eis uma das funções da Filosofia. Retomando a velha alegoria platónica, é esse o papel do prisioneiro que se liberta da caverna das sombras e aparências. Procuremos então uma neutralidade histórica, sociológica ou psicológica e façamos com a verdade o que também se pode fazer com vinhos ou perfumes: uma prova cega. Coloquemos então no pensamento uma venda que nos faça ignorar a época em que vivemos, o país e a cultura onde nascemos, as nossas experiências pessoais. Para usar um jargão filosófico, ponhamos o nosso mundo entre parêntesis para pensarmos por exemplo, se há ideias que morreram historicamente e que deveriam ter sobrevivido porque são intrinsecamente boas, apesar de, histórica e culturalmente, terem passado a ser consideras más, se outras há que nunca deveriam ter chegado a nascer por serem intrinsecamente más, apesar de, histórica e culturalmente, terem passado a ser consideradas boas, ou se há ainda ideias que nasceram e que devem manter-se vivas pois não são apenas aceites histórica e culturalmente como também intrinsecamente boas.

Vejamos o caso da aceitação da homossexualidade, dos casamentos entre homossexuais e adopção de crianças por casais homossexuais. Sou o primeiro a congratular-me não só com a normalização social da homossexualidade, como também com os casamentos homossexuais e a adopção de crianças por casais homossexuais. Creio estar, portanto, não só no lado certo da história como também do lado da razão que procura uma verdade natural mais profunda do que as contingentes e passageiras verdades factuais. Para o justificar, tentando fazê-lo do lado de fora da caverna, posso socorrer-me de ideias, e só para não sair dos clássicos (e cá está, que viveram num tempo em que estas ideias seriam consideradas absurdas), de Aristóteles, Epicuro, Montaigne, Espinosa, Locke, Kant ou Stuart Mill. Mais fiel ou menos fiel aos seus textos, posso vê-los como fonte de inspiração racional para legitimar filosoficamente (isto é, racionalmente) a minha posição, evitando assim o mais arbitrário dos relativismos, de acordo com o qual, as nossas ideias não passam de perspectivas.

Mesmo assim, não posso sentir-me apaziguado e com a feliz sensação do dever cumprido. Se quero estar mesmo fora da caverna e não voltar para as aparentes sombras, devo perguntar por que motivo segui esse caminho e não outro. Por que razão fui buscar estes filósofos e não outros. E fizesse eu parte de um mundo onde Aristóteles ou Kant não são considerados referências importantes ou onde nem sequer teriam condições para o ser, como poderia agora legitimar a minha posição com eles? Eu vou buscar aqueles filósofos por razões completamente diferentes (nalguns casos até contraditórias): ou porque valorizo a felicidade como projecto de vida, ou porque vejo cada pessoa como um fim em si mesmo que merece respeito enquanto tal, porque valorizo o indivíduo em detrimento de um todo social abstracto, porque aceito os valores próprios de uma sociedade liberal, porque aceito ver como natural coisas que o senso comum e a religião, com os seus preconceitos, tradições e irracionalidades, podem ver como absurdo. Mas o problema é precisamente esse: porque prefiro pensar com eles do que sem eles ou contra eles? Não será precisamente por pensar enquanto europeu, do século XXI, educado liberalmente? E por que razão um europeu, do século XXI, liberal, pensa assim? Pensa assim por ser isso ou pensa isso porque é isso que se deve pensar? Eis a velha questão platónica: eu gosto de uma coisa porque ela é boa ou ela é boa porque gosto dela? Neste caso, não estarei numa situação em que mais do que ter uma crença justificada pelo pensamento, penso para justificar a minha crença? Como posso ter a certeza disso?

Termino aporeticamente, por agora, até porque preciso de ir fazer o almoço. Para já, apenas dizer que fico contente com esta legislação liberal, tolerante e aberta. Se a água é boa só porque tenho sede, é coisa que para já não importa. Uma coisa é certa: não está inquinada, ninguém vai morrer envenenado por ela e só a bebe quem quer. Pode não ser muito, filosoficamente falando. Mas deixa-me tranquilo pensar assim e é bom pensar assim, sobretudo num domingo, apesar de ter o raio do almoço para fazer.