13 novembro, 2015

SEM SOMBRAS DE GREY

Albert Watson, Pequim, 1979

Se é verdade que embirro com a ideia de uma educação sexual, em cuja raiz se encontra uma visão racional e científica do sexo, não embirro menos com a totalitária ideologia sexual com que somos permanentemente doutrinados e catequizados através de uma comunicação social, seja esta mais séria ou menos séria, que mais parece ser escrita por pessoas que saíram de uma penitenciária, depois de 5 anos de abstinência. Uma ideologia que obriga a pensar que a vida gira em torno do sexo e, se não for esse o caso, dever-se-á pedir o apoio de especialistas, sobretudo psicólogos e sexólogos.

Acabo de folhear a revista Happy Woman, onde vou encontrar os mesmos artigos de sempre inspirados nesta opressiva, dogmática e unidimensional ideologia sexual que há décadas anseia transformar pessoas normais, que simplesmente gostam de sexo, numa espécie de doninhas em cio permanente e com a versatilidade de um contorcionista do circo Chen. Como se fica depois de se ler uma dessas revistas? Com a ideia de que se não se fizer sexo pelo menos três vezes por semana, se não se recorrer pelo menos a quinze posições, nos sítios menos ortodoxos, não passamos de umas miseráveis criaturas que fazem sexo com o entusiasmo e criatividade de um peixinho de aquário dois dias antes de morrer.

Por exemplo, a Margarida, 32 anos, diz ter cada vez mais a noção de que o seu casamento está a acabar. Porquê? Porque o sexo, que foi o motor de todos os seus relacionamentos, sérios ou não, tornou-se, agora que está casada com o Filipe, uma pasmaceira. Os preliminares foram à vida e o acto propriamente dito não dura mais do que uns miseráveis cinco ou sete minutos. Mais complexo é o caso da Helena, 25 anos, que namora há 5 meses com o Alexandre. Não tem dúvida de que o Alexandre é a pessoa certa, correndo tudo às mil maravilhas. O único problema é o sexo, em que «a lengalenga é sempre a mesma»: as mesmas posições, nos mesmos sítios e até a hora é quase sempre a mesma, ou seja, resumindo-se à penetração em três ou quatro posições diferentes, sempre depois da hora de jantar e sempre no quarto. 

Já li o suficiente para ficar a perceber que restringir o sexo a três ou quatro posições pode fazer-nos sentir como se estivéssemos na cama a ver um filme do Manoel de Oliveira, adormecendo de tédio ao fim dos tais cinco ou sete minutos que é o tempo que dura o sexo da Margarida com o marido. Ou que limitar o sexo ao quarto, desprezando sítios como o lava-loiças, a casota do cão, o interior do carro dentro da garagem, a parte superior da máquina de lavar roupa durante a centrifugação, o chão da sala atrás dos cortinados ou uma escura e apertada despensa no meio de vassouras, aspirador e pacotes de cereais, pode tornar o sexo uma coisa tão excitante como passar as tardes a ver o Canal Parlamento na cela de uma prisão (com a idade que tenho devo dar graças a Deus por morar num modesto T2 e cuja garagem é colectiva). Mas também não é razão para desesperar uma vez que as revistas estão inundadas de especialistas que nos dão bons conselhos, ideias e até tácticas, transformando o sexo numa espécie de desporto radical que faz dos seus praticantes verdadeiros atletas olímpicos em busca de medalhas como a auto-estima, o auto-conceito, a plenitude existencial ou estar em sintonia com as mais gratificantes energias cósmicas de um universo do qual somos a parte mais importante, sobretudo quando se conseguem pelo menos meia-dúzia de orgasmos durante uma noite louca, acordando na manhã seguinte com vontade de gritar «I'M THE KING OF THE WORLD» (Ou THE QUEEN). E se o casal não se conseguir entender quando há divergência de energias, de libido, de desempenhos, haverá sempre os viagras masculinos ou femininos, umas macacadas pornográficas ou brinquedos para poderem ajudar a «salvar a relação» Para os mais conservadores e tímidos haverá sempre o psicólogo ou o sexólogo.

Certo? Não, errado. Toda esta parafernália verbal a respeito do sexo é violenta, castradora, contra-natura, culpabilizadora. Tão culpabilizadora, mas em sentido contrário, quanto séculos e séculos de moralismo cristão. Para além de pindérica, inestética e grosseira. Transformar o casal numa máquina de sexo e o casamento numa mansão dos prazeres, reduzir a felicidade e o sentido da vida ao desempenho sexual ou fazer da libido o núcleo da identidade pessoal é um erro que leva muita a gente a ter de o pagar caro, ainda que estupidamente e sem necessidade disso. Já não se aguenta tanto sexo, sendo altura de virar o disco e passar a ouvir uma música diferente.