18 novembro, 2015

O BORRIFADOR DE AZEITE DO LIDL

Pablo Picasso | Cabeça de Touro, 1942

Botany is a science but gardening is not; action and the result of action in situations where only the surface is visible will be successful, partly, no doubt, as the result of luck, but partly owing to 'insight' on the part of the actors, that is, the kind of understanding of the relations of the'upper' to the 'lower' levels, the kind of semi-instinctive integration of the unaccountable infinitesimals of which individual and social life is composed (of which Tolstoy spoke so well in the Epilogue to War and Peace),  in which all kinds of skills are involved [...]There is an element of improvisation, of playing by ear, of being able to size up the situation, of knowing when to leap and when to remain still, for which no formulae, no nostrums, no general recipes, no skill in identifying specific situations as instances of general laws can be a substitute. Isaiah Berlin, The Sense of Reality

Há muito que andava a precisar de um galheteiro mas ia deixando passar. Por mero acaso, vendo-os no Lidl por bom preço, lá finalmente comprei. Chegando a casa, apercebi-me de que não eram galheteiros coisa nenhuma mas, sei lá como chamar, talvez «borrifadores» de azeite e vinagre cujo conceito nem sabia que existia. No fundo, funcionam como um frasco de perfume, com um botão que faz «puf, puf» para borrifar com azeite ou vinagre a comida que está no prato.

A minha primeira reacção ao dar-me conta do que tinha comprado foi ficar irritado com a minha estupidez. Depois passei à fase do desânimo por causa da minha estupidez e de frustração por ter comprado uma coisa estúpida a qual só me apetecia deixar para o lixo. Em suma, estupidez a mais, o que não é nada simpático quando nos vemos mentalmente ao espelho. Habituado que estou, como bom português, a regar generosamente a comida com azeite, a primeira coisa que me veio à cabeça foi estar perante mais uma daquelas mariquices pós-modernas que subvertem as boas velhas tradições, tirando cor e cheiro à existência. 

Por preguiça, resolvi ficar com o raio do borrifador em vez de voltar ao Lidl só para o devolver, permitindo-me assim passar à fase da experimentação. A primeira vítima foi um pedaço de Mozzarella cortado às fatias com rodelas de tomate. Borrifei. Mas ao borrifar apercebi-me de que, ao contrário do que acontece com uma bela posta de bacalhau com couve e batata, que adora nadar numa piscina de azeite, o queijo e o tomate resultaram melhor com um banho seco. Ou seja, podendo fazer vários «puf, puf» em vez de verter o azeite, sem precisar de desafiar a lei da gravidade, consigo temperar a comida de modo a obter um resultado mais razoável e satisfatório.

Esta história tem duas partes: uma má e uma boa. A parte má é ser obrigado a confrontar-me com a minha estupidez e a mais do que provável possibilidade de continuar a ser estúpido. A parte boa é perceber que a minha estupidez pode não ser tão dramática quanto possa parecer à primeira vista. Mais: pensar que uma racionalização perfeita poderá dar origem a coisas boas e eficazes (algumas delas dependem mesmo dessa implacável racionalização) mas é limitada, uma vez que, fixando modelos, ficamos reféns deles e impedidos de, através do erro e de uma relação aberta e espontânea com o mundo, alcançar outras coisas boas. Se, no Lidl, eu não tivesse comprado o «borrifador» de azeite porque o que eu queria mesmo era um galheteiro, o modelo que tinha em mente, eu não estaria agora a usar o meu querido «borrifador» para temperar mais eficazmente as minhas massas frescas da Rana, o meu tomate com Mozzarella, os meus brócolos ou a minha morcela de arroz. 
Uma descoberta que me deixou mais apaziguado comigo mesmo e com o mundo.