28 novembro, 2015

NO FIM ERA O VERBO

Ann Mansolino

Falava ontem uma aluna, com alguma piada, da quantidade de palavras novas que já aprendeu nas aulas de Filosofia. É normal, pois na verdade devo parecer um B-52 a bombardeá-los com novas palavras, muitas delas «caras». Desta vez, e só por mera curiosidade, veio a propósito de terem aprendido o significado da palavra «inalienável». 

Não tem nada que ver com erudição bacoca ou querer fazer deles ridículos Calistos Elóis ou Bouvards e Pécouchets que sei perfeitamente que nunca irão ser. Sei é que um ano depois já ninguém se irá lembrar por que razão a ética kantiana é deontológica e a de Stuart Mill consequencialista, da teoria da justiça de Rawls, do que é uma falácia formal mais o falsificacionismo de Popper ou por que razão David Hume é um céptico face a processos mentais indutivos e a dúvida cartesiana, apesar de o ser, não ser céptica. É a vida, como diria o outro. Mas já ficarei contente, mesmo muito contente, só pelo facto de ensinar a rapaziada a falar e a perceber o que ouve. Isso, sim, é que é verdadeiramente importante.

Os números 87 e 107 não estão propriamente encostadinhos um ao outro. Mas talvez possamos juntar os fragmentos 87 e 107 de Heraclito, nos quais diz o filósofo, respectivamente que «Um tolo assusta-se com as palavras» e que «Os olhos e os ouvidos são más testemunhas para o homem quando este tem alma de bárbaro». Kant, Mill, Rawls, Popper, Descartes ou Hume? Pfff! Eu só quero que aprendam a ser atenienses num mundo de bárbaros.