19 novembro, 2015

LUZES DE PRESENÇA

Paolo Pellegrin

Hoje, enquanto tomava o pequeno-almoço, imaginei-me a discutir um qualquer assunto político, filosófico ou religioso, com um fundamentalista ou jihadista. Coisas como ser ou não preferível um sistema constitucional europeu a uma teocracia islâmica, se acreditar ou não em Deus é indiferente de um ponto de vista moral, ou mesmo a própria existência de Deus. É preciso uma forte imaginação para conceber tal discussão. A explicação é simples: o seu fanatismo, grau de manipulação e modo como está mergulhado nas suas próprias crenças, fá-lo ficar completamente impermeabilizado a novas ideias para análise e discussão. Para ele, é tão óbvia a legitimidade de desejar um califado na Península Ibérica como para mim um Serviço Nacional de Saúde justo e eficaz. Para ele, olhar para um europeu loiro e de olhos azuis e ver um herético cruzado por recusar as verdades islâmicas é tão evidente como um português achar o Ricardo Araújo Pereira mais engraçado do que o General Ramalho Eanes. E se para um europeu normal é indubitável a crença de que homens e mulheres devem ter os mesmos direitos, para ele é indubitável a crença de que homens e mulheres não devem ter os mesmos direitos. 

Eu posso dizer que explico ou argumento por que razão defendo o SNS, por que razão RAP é mais divertido do que Eanes ou por que devem ter homens e mulheres os mesmos direitos. O problema é o meu interlocutor também explicar, e acreditando na explicação, por que faz sentido pensar num califado ibérico, um europeu cristão ser herege, e homens e mulheres não deverem ter os mesmos direitos. A partir daqui, o que há para discutir? Nada. É como meter no mesmo campo dois grupos, um de andebolistas e outro de futebolistas, a jogarem o mesmo jogo mas cada um com as regras da sua modalidade. Um jogo impossível que nem deve chegar a começar.

A minha questão é a seguinte. Em relação ao meu imaginário debate com o fundamentalista ou jihadista, será óbvia a inutilidade do mesmo. Não vale a pena. Mas não acontece a mesma coisa em qualquer tipo de debate? Seja político, filosófico, moral, religioso ou sobre o mais comum assunto que possamos imaginar? Alguém já viu um político do BE mudar a sua opinião ao discutir com um outro político do PSD? Alguém já viu um economista do CDS mudar a sua opinião ao discutir com um economista do PCP? Ou um padre ao discutir com um ateu e o ateu ao discutir com o padre? Ou um taxista, que acha que os refugiados são todos uma cambada de terroristas, mudar de opinião porque entre a estação do Oriente e o Saldanha debateu o assunto com um tipo da Amnistia Internacional, e o mesmo em relação a este? Tudo jogos impossíveis e sem sentido, pois em cada premissa invocada na construção de um argumento, escondem-se razões que a própria razão desconhece, sedimentadas em esquemas mentais, emocionais, culturais, religiosos, ideológicos, que se foram mentalmente petrificando com o tempo. 

Há muito que deixei de acreditar na discussão. Uma discussão não é mais do que dois monólogos que, como duas linhas paralelas, nunca se chegam a tocar. No §218 de A Gaia Ciência, Nietzsche fala de "pessoas que, para produzir efeito, seja ele qual for, têm de explodir como se fossem bombas, e perto das quais se corre sempre o perigo de perder subitamente o ouvido - ou ainda algo mais". Eu não estou a defender o relativismo, dizendo que numa discussão ambas as posições se equivalem. Se eu discutisse com o fundamentalista, iria achar que teria muito mais razão do que ele. Penso apenas que não se pode dizer que da discussão nasça qualquer luz, embora também não se possa dizer que a discussão apague qualquer luz. Tirando aquelas coisas que são objectivas e consensuais, é longe das luzes que as ideias emergem.