05 novembro, 2015

HEMIPLEXIA

Rafael Trobat

A missão do chamado «intelectual» é, de certo modo, oposta à do político. A obra intelectual aspira, com frequência em vão, a aclarar um pouco as coisas, enquanto que a do político, pelo contrário, costuma consistir em confundi-la mais do que já estavam. Ser da esquerda é, como ser da direita, uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser um imbecil: ambas são, com efeito, formas de hemiplexia moral. Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas 

Por muito apolíticos que nos possamos julgar, todos somos mais um bocadinho de esquerda ou mais um bocadinho de direita. Porém, mais do que certa ou errada, qualquer ideologia ou crença política é intrinsecamente limitada e unilateral, o que faz com que na base de qualquer ideologia, programa político ou  credo partidário haja sempre, como diz Ortega, uma hemiplexia moral. 

No famoso livro O Homem que Confundiu a Mulher com um Chapéu, Oliver Sacks fala de uma senhora de 60 anos que, por causa de uma trombose que lhe afectou o hemisfério direito do cérebro, perdeu completamente a visão das coisas que lhe surgissem do lado esquerdo. Por exemplo, num prato só conseguia comer o que estava do lado direito ou maquilhava apenas o lado direito do rosto. Trata-se de uma perspectiva neurológica do que se passa igualmente com as crenças ou ideologias políticas. Dizia há uns anos o cartoonista dinamarquês que provocou a ira no mundo muçulmano, que já tinha experienciado o nazismo, o fascismo, o comunismo, e que naquele momento tinha de aguentar com o islamismo. E que para curar a maleita dos «ismos», base de todo o fanatismo (outro ismo), nada melhor do que uma boa dose de dúvida, o sentimento mais construtivo que se pode ter. Mas nem só os «ismos» são perigosos e precisam de terapia. Qualquer ideologia ou crença precisa dela. Daí que a missão do intelectual, ainda que possa estar politicamente comprometido ou até mesmo sujar as mãos na realidade viscosa que precisa de ser governada, deva ser manter uma reserva moral e epistemológica em relação a esse mundo da política, procurando defeitos onde outros só vêem virtudes e e virtudes onde outros só vêem defeitos 

Eu, apesar de não ser intelectual, gosto de nutrir um romântico desdém por políticos e uma higiénica distância face à política. Ora, como sou um bocadinho de esquerda, não estando por isso imune à imbecilidade de que fala o filósofo espanhol, é precisamente pela esquerda que mais gosto de exercitar a minha terapia a fim de evitar o desequilíbrio no meu campo de visão. Nunca me livrarei completamente da imbecilidade. Mas esforço-me por atenuá-la o mais possível.