30 novembro, 2015

FAKE YOU

Andreas Feiniger | O Fotojornalista, 1951

Quando comecei a ver telejornais, demoravam meia hora e eram uma vez por dia. Hoje, os principais demoram uma eternidade ou são de hora a hora, infectados de directos permanentes, dando aos Peeping Tom deste mundo, acesso às partículas sub-atómicas que sustentam a realidade, anteriormente invisíveis a olho nu. Mais os comentadores especializados que, como teólogos medievais, explicam obsessivamente a realidade com a mesmo prazer minucioso com que um anatomista explica o esternocleidomastoideo.

Mas que realidade é esta? Orson Welles, que muito pensou e escreveu sobre cinema, ajuda-me a responder, ao escrever, em 1954, que 

«[...] o cinema não é um meio de informação mas de divertimento. Isto é verdade. Mas é igualmente verdade que o jornalismo entra em estreita concorrência com o cinema no domínio do entretenimento popular. O verdadeiro jornalismo relata um facto, o jornalismo depravado alimenta-se dele. De qualquer forma, nunca pode ir além da observação e do comentário. Se tenta ultrapassá-los encontramo-nos, nós cineastas, perante uma tentativa de concorrência no domínio, não apenas do entretenimento, mas também da ficção. "Tentativa" apenas pois não tem possibilidade de fabricar mesmo má ficção com a matéria bruta dos factos. Pois a ficção não é uma versão do que aconteceu. É o que teria podido acontecer, e não a versão de seja o que for. A ficção pede a invenção. O jornalismo impede-a» (Démocratie Combattante, Abril/Maio 1954).

Impressionante esta precoce lucidez sobre a penetração do jornalismo no terreno da ficção e concorrente do cinema. Enquanto o cinema ou a literatura lidam com a ficção, o jornalismo lida com factos. Mas o que é verdadeiramente um facto ou o que existe? Ao contrário da vida em si mesma, quase nada do que existe é um facto. Tudo o que é facto jornalístico existe mas nem tudo o que existe tem de ser um facto jornalístico. Ora, quantos factos jornalísticos não passam de não-factos? Quantas notícias não passam de não-notícias? Quantos directos, feitos em palcos de papel facilmente rasgado, por jornalistas excitados com uma erótica do real puro e duro, que chega às cores das canetas com que ministros assinam a sua tomada de posse, não lembram os ecrãs dos sistemas de vigilância dos supermercados, nos quais nada acontece a não ser pessoas a circular entre prateleiras? Acredita que quanto mais se foca a realidade mais perto estamos dela, quando é precisamente o contrário, quanto mais se foca, mais longe ficamos. E enquanto no cinema a ficção é assumida, havendo um acordo tácito entre realizador e espectador no modo como este é voluntariamente manipulado, no jornalismo a realidade é vendida como obra de ficção com os respectivos mecanismos dramáticos, criando a ilusão de que se transmite a realidade tal como ela é. Uma realidade tão real, tão demasiado real, que me fez, definitivamente, cansar dela.