01 novembro, 2015

- ENTÃO POR AQUI?


Acontece comigo e se calhar com quase toda a gente. Ao passear num cemitério, o impacto emocional das campas ou jazigos de pessoas que morreram há 50 ou 60 anos, é menor do que o de alguém que morreu há meia dúzia de dias, semanas ou meses. É normal. Normal, porque projectamos no tempo desses mortos, para nós já completamente mortos, a nossa relação com o tempo, feita de proximidade e distância de acordo com a quantidade de folhas do calendário que já virámos. Passar pela campa de alguém que morreu há 60 anos é como passar por alguém que já morreu dentro da própria morte. Já uma pessoa que morreu há menos tempo mantém uma espécie de vida, pois, apesar de morta, viveu uma vida que coincidiu parcialmente com a nossa. Está ali mas podia ainda não estar, ainda respirar, mexer-se, andar na sua vida, da qual também fazemos parte. Está ali mas podia não estar, nós não estamos, mas poderíamos estar e passar por ela lembra-nos isso.

É injusta esta discriminação sentimental face aos mortos. Lá porque os ponteiros do relógio avançam e as folhas do calendário vão sendo viradas uma a uma, não passam a existir mortos de primeira e de segunda, mortos que merecem mais a nossa compaixão, outros que nos deixam mais indiferentes. É injusta, porque na morte não há tempo. O tempo, essa coisa de anos, meses, semanas, dias, horas ou minutos, dentro da qual vivemos como numa sala confortável e arrumada para não nos perdermos no meio das nossas coisas, faz parte da vida e não da morte. A morte é temporalmente informe, uma espécie de buraco onde só existe uma eternidade na qual não existe diferença entre 2500 anos e um simples minuto. A memória e a vida são feitas de tempo, mas nesse buraco sem tempo que é a morte, não há longe nem perto, não há passado, presente ou futuro, não há muito nem pouco. E quando passeamos por um cemitério, a sua superfície continua a ser uma superfície moldada pela consciência dos vivos que vão arrumando os mortos no calendário. Às escuras, silenciosas e oceânicas profundezas da morte estão sempre, todos eles, a acabar de chegar mas é como se tivessem sempre lá vivido. 

Há um belo, e literalmente fantástico, conto de Danilo Kis chamado A Enciclopédia dos Mortos que deve ajudar-nos a redimir desta injustiça. Em Estocolmo, uma mulher é levada até uma biblioteca onde os livros, tal como as garrafas velhas numa adega, se encontram envolvidos em teias de aranha e encadeados uns nos outros como os homens das galés. Cada sala é dedicada a um letra do alfabeto. O que há então nessa biblioteca? Apenas uma enciclopédia onde se pode encontrar o mais microscópico registo biográfico de todas as pessoas mortas. Todas mesmo? Não. Há uma condição para se estar registado: não ter o seu nome em qualquer outra biblioteca. Ou seja, apenas as pessoas anónimas e comuns têm esse direito. A personagem dirige-se então até à sala da letra «C», onde irá procurar o registo do pai. E o que vai encontrar sobre ele? Tudo. Literalmente, tudo. Todos os factos da sua vida, as suas mais ínfimas e atómicas sensações e experiências desde que nasceu até morrer, as paisagens que viu, as roupas que vestiu, as coisas que comeu, todas as pessoas que conheceu, a meteorologia associada aos factos mais efémeros e insignificantes da sua vida. Enfim, tudo. E tudo isto, para quê? Os autores desta enciclopédia acreditam na bíblica ressurreição da alma e, com tais ficheiros, permitem que os novos mortos possam não só reencontrar os seus próximos mas também recuperar todo o seu passado. 

O conto ideal para pessoas que, não sendo Platão, Miguel Ângelo, Napoleão, Madame Curie, JFK, Amy Winehouse ou Maria Barroso, precisam de saber que também são únicas e que tudo o que viveram e sentiram foi vivido e sentido apenas por si e que, por isso mesmo, sempre que morre um ser humano, é todo um universo rico e complexo que desaparece, apesar de nem sempre termos a capacidade para o entender quando estamos vivos. E as sensações, as experiências, as emoções de quem morreu há séculos foram tão reais como as de quem deixou de viver há pouco tempo, as quais, um dia mais tarde, num tempo onde o tempo irá sempre continuar a existir e outros virarão as folhas do calendário, também passarão a ter vivido há muito tempo.