02 novembro, 2015

É A VERDADE, ESTÚPIDO!

Alfred Eisenstaedt | Thomas Hart Benton, 1969

De vez em quando, há um aluno ou outro que me elogia como professor, assim como às minhas aulas. Eu, claro, fico contente, mesmo admitindo que podem ser os únicos a pensar assim e que todos os outros que nada dizem pensarão o contrário. Mas vamos supor que um destes dias, depois de um aluno me elogiar, um outro levanta o dedo para discordar, dizendo que, para além das minhas aulas serem péssimas, me acha um imbecil. Como devo reagir a um aluno que, em plena sala de aula, me chama imbecil? Atenção, não se trata de um insulto. Ele não está a chamar-me «imbecil» da mesma maneira que se tratam os automobilistas quando discutem através do vidro do carro ou outras situações afins. Não. Di-lo com a mesma fria neutralidade de um Bartleby, com educação, e apenas porque discorda do colega. Mesmo assim, ofendido e humilhado perante a turma, creio que o meu primeiro instinto seria tomar as devidas medidas disciplinares: expulsão da sala de aula e posterior participação por escrito. Mas será mesmo isso o que devo fazer?

Em primeiro lugar, se eu aceito que um aluno me elogie, devo também aceitar a posição contrária. Seria absurdo permitir apenas a intervenção de alunos que me elogiam, impedindo todos os outros de manifestarem a sua opinião. É uma questão da mais elementar justiça, a qual pressupõe um equilíbrio entre duas posições simétricas. Permitir apenas uma delas, desequilibra por completo a ordem das coisas. Por outro lado, mas ainda na sequência do anterior, permitir apenas elogios anula o valor desses elogios, envolvidos que ficam num desolador embrulho de pensamento único. 

Em segundo lugar, se o aluno acredita mesmo que sou um imbecil, como poderei eu obrigá-lo a acreditar que não o sou? Como é possível acreditar no que não se acredita ou não acreditar no que se acredita? Imaginemos que vamos parar a um planeta cujos habitantes, para além de irracionais, são pérfidos tiranos, e nos obrigam a acreditar que 2+2 não são 4 ou que a Terra não gira em torno do Sol. Como conseguiremos não acreditar numa coisa que não conseguimos deixar de considerar verdadeira? Ou querem fazer-nos acreditar que Hitler e Estaline foram dois terráqueos conhecidos pela sua bondade natural e bem que fizeram à humanidade. Como conseguiremos acreditar como sendo verdadeira uma realidade que acreditamos ser completamente falsa? Ora, se o meu aluno acredita efectivamente ser verdade que sou um imbecil, que legitimidade terei para o obrigar a acreditar ser falso o que ele acredita ser verdadeiro?

Em terceiro lugar, e sem deixar de ter razões para me sentir desconfortável pela possibilidade de alguém me considerar imbecil, como posso ter a certeza de que não o sou mesmo, tendo o aluno, afinal, razão? Sei, isso sim, e com toda a certeza, que se ele me dissesse que concluí a minha licenciatura num domingo à tarde e que grande parte das cadeiras foram equivalências, seria falso. Como seria falso dizer que nunca li um livro de Stuart Mill ou que não preparo as minhas aulas. Sei bem o que faço ou não faço, sabendo pois o que é verdadeiro ou falso sobre o que faço ou não faço. 
Mas como posso estar eu certo de não ser um imbecil? Eu não serei a pessoa mais imparcial do mundo para julgar as minhas crenças, sobretudo quando mexem com uma minha putativa imbecilidade. E o facto de haver alunos que me elogiam não anula a verdade da crença daquele aluno. Esses alunos podem estar a mentir, a adular-me para virem a ser beneficiados no final do período.
Ora, independentemente de o aluno ter ou não razão, poderei beneficiar do facto de ele me ter chamado imbecil. Por um lado, obriga-me a investigar sobre o assunto, seja através de um exercício introspectivo, seja indagando pessoas que considero e respeito e que me dirão de sua justiça se sou imbecil. Se, entretanto, tiver motivos para acreditar que posso ser mesmo imbecil, devo agradecer ao meu aluno ter-me dado a oportunidade de o saber, abrindo assim a possibilidade de deixar de o ser. Se, pelo contrário, depois de ouvidos os meus juízes, chegar à conclusão de que não sou imbecil, deverei então servir-me dos seus argumentos para tentar convencer o meu aluno de que existem outras crenças a meu respeito mais razoáveis do que a sua. E tentar, doravante, fazer tudo o que estiver ao meu alcance para impedir qualquer possibilidade de algum aluno me considerar imbecil, fazendo isso de mim um melhor professor.