25 novembro, 2015

E VENCEU


Em 1974 ou 1975, quando se ouvia falar do Chile, o que vinha de imediato à cabeça de um português? Pinochet, terror, tortura, desaparecidos, chuva em Santiago, um estádio-prisão, Allende assassinado em La Moneda. Hoje, quando um português ouve falar em Chile, a primeira coisa que lhe vem à cabeça é pescada. A famosa pescada do Chile. Foi pois com uma certa melancolia feliz que, ao ver uma exposição de Sérgio Valente chamada «Um Fotógrafo na Revolução», dei com uma fotografia de um comício  do PCP onde aparecia uma faixa enorme, tendo escrito «O Chile Vencerá». Em comícios de esquerda, incluindo os do PS que eu frequentava, havia sempre um momento de homenagem ao povo do Chile, em que as pessoas se levantavam de punho erguido, para gritarem «O Chile Vencerá!», «O Chile Vencerá!», «O Chile Vencerá!». Apesar da minha tenra idade, eu próprio o fazia, sentindo, íntima e profundamente, o desejo de que o Chile viesse a vencer para pôr fim ao pesadelo, do qual, nós, portugueses, havíamos há pouco saído.

A minha melancolia perante essa fotografia não é apenas a famosa melancolia das ruínas de pedra, como abadias inglesas perdidas na vegetação, anfiteatros gregos, vilas romanas ou aldeias inteiras desabitadas mas que outrora estiveram prenhes de vida. É também uma melancolia motivada pela pueril consciência daquelas pessoas que, com bigodes, barbas, vozes grossas, homens e mulheres maduros, gritam «O Chile Vencerá!» como crianças que torcem para que o Pai Natal venha na noite de Natal, que não se esqueça, que não se distraia, satisfazendo os seus desejos. Por que razão é ingénua a frase «O Chile Vencerá»?

Quando um adepto acredita que o seu clube vai vencer, sabe que tal pode não acontecer. Mesmo o mais fanático adepto do Barcelona que, antes seja de que jogo for, desde clubes fraquinhos como o Sporting Clube de Portugal e o Las Palmas, até gigantes como o Bayern e o Manchester City, sabe bem que, por um qualquer infortúnio, pode empatar ou perder. Uma pessoa que acredita que irá vencer um cancro, mas acredita mesmo, sabe perfeitamente, no seu íntimo, que pode não vencer. Ponhamo-nos então na cabeça de um adepto do Barcelona que, na véspera da final de uma Liga dos Campeões com o Bayern, diz a si mesmo «O Barcelona vencerá!», «O Barcelona Vencerá!», «O Barcelona Vencerá!». Ou na cabeça do doente que, no silêncio da noite, diz a si mesmo «O cancro será vencido!», «O cancro será vencido!», «O cancro será vencido!». O que significa pensar isso? Significa ter esperança, acreditar na melhor de duas possíveis saídas, uma boa e outra má, esperar que uma complexa conjugação de factores torne possível concretizar o seu desejo.

Era também isso que passava pela cabeça das pessoas que gritavam «O Chile vencerá!» Neste caso, as pessoas olhavam visionariamente para o futuro, não para imaginar a quimioterapia a vencer o cancro ou o Barcelona a vencer 2-0, mas para imaginar um Chile democrático em vez de um Chile governado por uma ditadura militar. Só que há uma enorme diferença. O «Chile Venceria» sempre pois a História obrigaria-o sempre a vencer. A História é, neste sentido, quase como um árbitro comprado. Nós olhamos para a América Latina dos anos 70 e vemos ditaduras militares por todo o lado. A própria Europa, nos anos 70, tinha ditaduras (excluo as comunistas por se tratar de outro registo): Portugal, Espanha, Grécia, hoje democracias consolidadas. Por que razão todos esses países se tornaram democracias? Porque tiveram sorte, porque houve uma conjugação favorável de factores, ou porque teriam mesmo de se tornar democracias? O 25 de Abril poderia não ter sido em 1974 mas em 1976 ou 1978. Certo. Mas alguém tem imaginação para conceber, no actual quadro europeu, uma ditadura fascista em Portugal? Ou, sendo hoje dia 25 de Novembro, e admitindo que os comunistas tinham conquistado o poder, uma ditadura comunista, pró-soviética? Quando a própria União Soviética há muito que deixou de existir? Ora, o mesmo se passa com Porto Rico, Bolívia, Argentina, Salvador, Guatemala, Honduras, Paraguai. Ou o Chile. Os países da outrora célebre Latin' America, dos Jafumega.

Daí a ingenuidade infantil do «Chile vencerá!» Um grito de guerra do género «Depois do Inverno queremos a Primavera!», «Depois de quinta-feira queremos que seja sexta-feira!», «Queremos que no Verão faça calor e no Inverno faça frio!», enfim, «O Sol vencerá a noite e amanhã voltará a nascer!». Daí também que ver estas fotografias a posteriori, compreender a posteriori o mundo de então, é aprender a ver o mundo como Deus o vê, a priori. Como num filme policial quando, finalmente, depois de duas horas de inquietante mistério se descobre o assassino e percebemos que não poderia ter sido outro. Colombo foi uma personagem histórica. Mas o seu ovo é a própria História.