17 novembro, 2015

DIA MUNDIAL DO NÃO FUMADOR



Continuo a ter alguma dificuldade em interiorizar o facto de o século XX ser o século passado. Na minha cabeça, o século passado irá ser sempre o século XIX. Daí sentir-me baralhado, confuso, perplexo diante de uma fotografia como esta. Eu sou do tempo em que era possível ver em directo, na televisão, um dos mais reputados jornalistas portugueses e o presidente da A.R., ambos de cigarro na mão, dando umas valentes baforadas enquanto conversam sobre os mais importantes assuntos da nação. Aliás, muito provavelmente terei até assistido a este programa, sem sequer pensar, como agora, no facto de os dois interlocutores estarem a fumar. Porém, olha-se hoje para esta fotografia e fica-se com a sensação de pertencer a um tempo que já não é nosso. O que aconteceu, entretanto, para que tal acontecesse? O fascismo higiénico.

O fascismo higiénico é o resultado de mais uma perversa ligação entre ideologia e ciência e que tem como efeito mais visível azucrinar a cabeça das pessoas que a todo o momento, por tudo e por nada, são obrigadas a deparar-se com o facto de serem potencialmente doentes e, mais grave ainda, mortais. Eu, por causa disso, já não consigo deixar de me ver com a mais frágil, finita e miserável das criaturas, embora, felizmente, acompanhado por mais de 7 biliões de criaturas que tiveram o azar de nascer humanos em vez de felizes e realizadas bactérias resistentes aos mais poderosos antibióticos. Daí todo o cuidado ser pouco: fumar faz mal, beber faz mal, comer faz mal, respirar faz mal, estar sentado faz mal, dormir muito faz mal, dormir pouco faz mal, pegar num telemóvel, no volante do automóvel ou num pano de cozinha faz mal, tal é quantidade de microscópicos agentes nocivos que nos vêm atacar, descarregar um autoclismo com a tampa aberta faz mal, como foi há pouco tempo provado cientiticamente. Em suma, viver faz mal, estar vivo faz mal. Creio mesmo que, de acordo com esta ideologia sanitária, a morte deverá ser mesmo vista como uma espécie  de libertação, pois quem morre deixa de viver obcecado por poder vir a morrer por comer porcarias (que agora passaram a incluir o açúcar), beber porcarias, fumar, dormir mal, não praticar desporto, andar sem luvas ou não desinfectar as mãos de 15 em 15 minutos.

Desengane-se quem pensa que escrevo motivado por uma raiva vingativa, tendo à minha frente um cinzeiro cheio de beatas, que já vou no terceiro ou quarto uísque e que vou encher o bandulho com uma refeição com cerca de 3000 calorias. Não, deixei de fumar há muitos anos, apesar de gostar de o fazer de vez em quando, e sou filho de quem morreu com 54 anos com um cancro de pulmão, directamente relacionado com o tabaco; habitualmente não bebo, apesar de gostar de várias bebidas alcoólicas; apesar de gostar muito, mas mesmo muito de comer, faço-o de um modo prudente; e sim, sou um rapaz asseadinho e que detesta viver em ambientes sujos e badalhocos. Porquê? Porque do mesmo modo que tenho a consciência do bem e do mal tenho a consciência do que faz bem e do que faz mal. Chama-se a isto sensatez, prudência, temperança, sabedoria prática, um certo instinto para escolher comportamentos certos em vez de errados. 


Mas sabedoria prática é uma coisa, reduzir a vida a um conjunto de procedimentos estritamente racionais, uma outra completamente diferente. A  minha prudência não me impede de pensar que faça eu o que fizer de correcto ou não faça o que não fizer de incorrecto, irei adoecer e morrer. A minha prudência não me impede de pensar que grande parte das coisas correctas ou incorrectas não implica uma relação directa de causalidade entre bons e maus efeitos, mas apenas estatística. Como tantos outros fumadores, o meu pai morreu com cancro de pulmão por fumar desalmadamente e grande parte das pessoas que nunca fumaram não virão a morrer com cancro de pulmão. Mas isso não significa que fumar mate ou que não se morra ou não se adoeça por não fumar. O que não podemos, por ser doentio, obsessivo, obstinado, é acordar todas as manhãs como se vivêssemos num laboratório asséptico, onde fazemos escolhas completamente racionais enquadradas por uma orientação científica e política, para iludirmos o facto de sermos imperfeitos, frágeis, perecíveis, mortais. 

Quero ser saudável? Quero. Quero viver o maior número possível de anos, sendo saudável? Sim. Por isso raramente fumo embora tenha fumado dois ou três cigarros na semana passada, não bebo no dia a dia, embora tenha bebido vinho a todas as refeições no fim de semana passado, tenho uma alimentação equilibrada, apesar da sopa da pedra na semana passada em Almeirim, e respeito regras básicas de higiene graças às quais fico mais protegido de agentes agressivos para o meu organismo, apesar de nunca ter desinfectado o meu telemóvel ou passar a vida a limpar a bancada da cozinha. E é precisamente por gostar de ser saudável que não quero viver doente de tanta saúde. Não fumar é uma coisa que posso considerar saudável. Ser não fumador e levar com umas festinhas na cabeça de meia dúzia de fanáticos e alienados biopolíticos, é uma doença da qual espero nunca vir a padecer.