11 novembro, 2015

CHIARO E SCURO


«Pode chover ou abater-se uma tempestade, mas não é isso que conta; uma pequena alegria pode surgir frequentemente num dia chuvoso e fazer um homem parar algures, para ficar sozinho com a sua felicidade, ou então levá-lo a levantar-se e olhar para diante, independentemente do sítio onde se encontre, para depois se rir tranquilamente uma e outra vez, enquanto observa tudo em seu redor. O que é que existe à nossa volta que nos faça pensar? Uma vidraça límpida de uma janela, um raio de sol na vidraça, o avistamento de um regato ou talvez uma faixa de azul entre as nuvens. Não é preciso mais do que isso. Noutras alturas, mesmo os acontecimentos pouco habituais são insuficientes para retirar um homem do aborrecimento e da pobreza de espírito; pode-se estar no meio de um salão de baile e mesmo assim permacer-se impassível, indiferente, sem se ser afectado por nada». Knut Hamsun, Pan, Cavalo de Ferro

Tendemos a associar alguns períodos históricos a certas condições meteorológicas ou ambientes atmosféricos conforme a boa ou má imagem que temos deles. Daí pensar-se na "Grécia Antiga" ou no maravilhoso "Renascimento" (de Leonardo, Rafael, das cidades italianas e flamengas, do florescimento científico), como períodos solares da História. Ou, em sentido contrário, na Idade Média, a famosa "Idade das Trevas", como período cinzento e chuvoso, fedendo a lepra e peste negra, ignorância e escravidão feudal. Basta pensar na luz com que foi pintado o filme O Nome da Rosa. Ou no título Noite e Nevoeiro, de Alain Resnais, neste caso, a propósito do nazismo E quem não se lembra da "longa noite fascista", uma noite de... de 48 anos?

Mas reduzir a realidade a imaginários esquemas desta natureza torna-se infantil e ilusório. A Grécia Antiga e o Renascimento estão cheios de pesadelos sociais, políticos, morais, de terríveis períodos negros. Viveram mais felizes inúmeros goliardos em Paris durante as "trevas medievais" do que um génio como Giordano Bruno no "luminoso" Renascimento. E quantas pessoas viveram os melhores anos das suas vidas ou tiveram as suas grandes alegrias durante a "longa noite fascista" em Portugal? E quantas pessoas se aborrecem de morte durante os gloriosos anos de democracia, paz e bem-estar social, adormecendo todas as noites no sofá em frente ao televisor? Tal como a História, também a vida das pessoas não pode ser reduzida a épocas cinzentas ou solares. Há belos dias cinzentos e de chuva, como há dias de luz e de sol que são insuportáveis. O encontro com a infelicidade dá-se muitas vezes ao meio-dia, num dia de Primavera, enquanto a felicidade se pode descobrir numa noite de Inverno, fria, tempestuosa e escura como breu.