10 novembro, 2015

ARCAS

Alexander Sokurov | A Arca Russa [fotograma]

O desprezo de Tolstoi pelo teatro de Tchekov, por peças, diz ele, ainda piores do que as de Shakespeare, é, acima de tudo, um desprezo pelo próprio teatro. Enquanto numa peça de teatro as personagens estão limitadas àquele pequeno espaço do qual não podem sair, pois, se saem, deixam de ser vistas pelo espectadores, entrando num plano de não-existência, já num romance é possível levar as personagens para onde se quer e estarmos sempre a segui-las. Uma personagem percorre a Europa, combate numa guerra, dorme e dança num palácio, e nós seguimo-la sempre no seu percurso. O escritor, claro, sente-se como um deus. Para perceber isso basta ler Guerra e Paz e olhar aquele infinito universo de personagens principais e secundárias e milhares de figurantes sem rosto, na fragmentação dos espaços e dos tempos.

Imaginemos que as casas tinham consciência e pensavam. Imaginemos então o Palácio de Versalhes a olhar para um modesto T2 de um bloco de apartamentos. O palácio oferecia, a quem lá vivia, salas, salinhas e salões. Salas mais íntimas para confidências políticas ou para devaneios amorosos, salas públicas e enormes salões de festas para centenas de pessoas. Quartos, quartos e mais quartos. Longos corredores, cantos e recantos. Sumptuosos jardins a perder de vista, labirintos, pavilhões de Inverno, lagos e bosques. Ora, o desprezo de Tolstoi pelas peças de teatro de Tchekov, e pelo teatro em geral, é feito da mesma massa de um previsível desprezo, arrogância e superioridade do palácio de Versalhes face ao pequeno e modesto apartamento cuja exiguidade impõe uma exiguidade social e existencial a quem lá vive. A experiência de ler Guerra e Paz é, neste sentido, como circular livremente pela imensidão do palácio de Versalhes. Como representar Guerra e Paz num palco? Não dá. Como diz Tolstoi, para onde podemos levar as personagens? A vida, para Tolstoi, não é um palco mas um labirinto infinito onde não há esquerda nem direita, centro ou periferia e, ousar representar a vida nesse espaço exíguo, implica necessariamente uma ilusão, uma distorção, uma artificial compressão do que é por natureza disperso, heterogéneo  e inefável.

Tolstoi está, porém, equivocado. É verdade, e lá nisso tem razão, que nós vemos as Três Irmãs ou O Cerejal em cima de um palco e percebemos que há ali um limite. Um limite que pode parecer fatal se pensarmos na tremenda ilusão que é reduzir a vida na sua mulitplicidade e complexidade  a esse exíguo palco de onde nenhuma personagem pode fugir sem se diluir no vazio. Mas não será a labiríntica liberdade do palácio igualmente uma ilusão? Um palácio pode ter muitas paredes mas continua a ter paredes. Os jardins podem ser sumptuosos mas têm sempre uma cerca a limitá-los. No fundo, a vida decorre sempre num palco e a circulação das personagens de Tolstoi por Moscovo, Borodino, S. Petersburgo, Paris ou Austerlitz, não deixa de ser a circulação das personagens por um palco. A vida decorre sempre num palco, e um palco onde muitas vezes o que acontece num pequeno apartamento pode revelar-se mais rico e complexo do que o que se passa num enorme e labiríntico palácio. O palácio pode ter grandes salões e uma pequena casa na aldeia apenas uma ridícula e humilde salinha. Mas o oxigénio, o ar que se respira é sempre o mesmo. Não há oxigénio para palácios e oxigénio para casinhas e os processos bioquímicos que alimentam a vida são os mesmos em toda a parte.

Há muitos anos, era ainda garoto, vi um filme francês no qual se cantava uma canção em cuja letra se dizia que a liberdade é podermos escolher as nossas próprias prisões. Neste sentido, somos todos reclusos. Guerra e Paz será absolutamente irrepresentável num palco, é certo. Jamais será possível comprimir todo aquele complexo labirinto na claustrofóbica finitude de um palco. Mas isso não evitará que os tolstoianos Pierre, Andrei, Nikolai e Natacha sejam tão reclusos dentro das suas imensas arcas como as «três irmãs» de Tchekov na sua pequena arca. A vida enrola-se ou desenrola-se sempre dentro de uma arca. E, como em qualquer arca, o ar que se respira é sempre limitado.