23 novembro, 2015

A VERDADE A QUE TEMOS DIREITO


Li há dias esta notícia que me deixou apreensivo: uma mulher condenada a pena de prisão pela sua atitude negacionista face ao holocausto, assumindo-se como «combatente intrépida pela verdade». Não faço a menor ideia se não acredita mesmo no holocausto ou se está apenas a ser cínica. Muito provavelmente está mesmo a ser cínica. Mas para o caso não interessa. Na Alemanha, é expressamente proibido negar ou minimizar o Holocausto, sendo condenado quem o faz, e o que importa analisar é se uma pessoa tem ou não o direito de negar o holocausto nazi. Eu defendo que tem, partindo do pressuposto de que negar o holocausto e incitação ao ódio são coisas completamente diferentes.

Eu sei que neste momento está sol em Torres Novas. Nada sei, todavia, sobre o tempo em Roma. Mas se eu falar ao telefone com uma pessoa que está em Roma, que me diz que está a chover, poderei depois dizer a alguém, no café, que «sei» que está a chover em Roma? Eu não ponho em causa que a minha crença de que está a chover a Roma seja verdadeira. Vamos supor que é mesmo verdade. Acontece que a verdade da minha crença, sendo condição necessária para poder dizer que «sei» que está a chover em Roma, não é, todavia, condição suficiente. Como diria Platão, a verdade de uma crença não basta para ser considerada «conhecimento» ou «saber». Porquê? Porque é preciso justificar.

Eu digo que na próxima jornada o Benfica vai empatar 1-1 com o Braga. Posso acreditar nisso mas não posso dizer que o «sei». Suponhamos que o Benfica empata mesmo 1-1. Apesar de a minha crença vir a revelar-se verdadeira, eu não «sabia», pois não consegui justificar porquê. Vejamos outra situação. Se eu tiver um encontro marcado com o Asdrúbal daqui a duas horas no café eu não posso dizer que «sei» que me vou encontrar com o Asdrúbal. Se a caminho do café eu escorregar e partir uma perna, não me irei encontrar com ele, concluindo assim que, afinal, não «sabia» o que julgava saber, mesmo que justificasse a razão por que sabia que me iria encontrar com ele (combinei com ele às 18 horas no Limão Verde para me emprestar um livro). O mais que poderia ter dito seria «Sei que acredito que me vou encontrar com o Asdrúbal». 

Voltemos a Roma. Eu não posso dizer que «sei» que está a chover em Roma, e isso nada tem que ver com a pessoa que lá está poder ser mentirosa. Mesmo que seja a pessoa mais honesta e sincera ao cimo da Terra, eu não posso «saber» que está a chover em Roma. Não se trata de um problema psicológico (a pessoa ser mentirosa ou eu doentiamente desconfiado) mas epistemológico. Eu acredito que está a chover em Roma porque tenho uma justificação para acreditar: ouvi dizer. Mas tenho sérias dúvidas de que «ouvir dizer» seja uma forma de «saber», mesmo sendo verdadeiro. O que posso dizer, sim, mas é completamente diferente, é que acredito na pessoa que verdadeiramente o sabe.

Claro que, em termos pragmáticos, «ouvir dizer»é uma forma de saber. «Sabemos» coisas ao ver o telejornal, assistindo a documentários, consultando uma enciclopédia ou quando nos dizem coisas sobre isto e aquilo e acreditamos nelas. Ou aprendendo na escola. Mas o que significa «saber» que Afonso Henriques foi o primeiro rei de Portugal? Sei, porque que o meu professor de História me ensinou. Não pergunto isto para estar a fazer uma birrinha filosófica ou simplesmente, como é habitual, só para me armar em parvo. Acredito que existem documentos e descrições históricas, consensualmente aceites como válidas. Neste caso, admito que os historiadores/investigadores que tiveram contacto com esses elementos, o «sabem». Mas quem não é historiador/investigador, não «sabe», apenas acredita naquele que sabe porque teve acesso directo às fontes. Se num teste de História perguntarem a um aluno quem foi o primeiro rei de Portugal, para mostrar que «sabe» e ter a resposta certa, ele vai dizer que foi Afonso Henriques. Simplesmente, ele não está a mostrar que «sabe». Como poderia ele saber? Ele mostra sim, que «sabe» que o seu professor lhe disse que era Afonso Henriques. Mas isso não é «saber X», é «saber que o professor sabe X», não funcionando aqui a transitividade: sabendo a pessoa A que X, e sabendo a pessoa B que a pessoa A sabe que X, não se infere que a pessoa B saiba que X, tal como do facto de o Manuel gostar da Ana e Ana gostar do António, não implica que o Manuel goste do António. 

É por isso que ninguém pode obrigar esta mulher alemã a acreditar que existiu o holocausto, mesmo tendo vivido durante a época em que supostamente aconteceu. Podemos dizer que, atendendo aos dados documentais e testemunhos directos, é uma estupidez não acreditar. Eu próprio acredito e falo nisso aos mais jovens com o mesmo grau de convicção com que falo da Batalha de Aljubarrota, que acredito ter ocorrido no dia 15 de Agosto de 1385, ou da composição química da água, que acredito ser H2O. Mas não se pode forçar a acreditar numa coisa, alguém que não quer ou consegue acreditar. Quando era garoto havia sempre alguém que tinha uma avó que não acreditava que o homem tinha ido à Lua. Nós ríamo-nos da ignorância, sobretudo por haver filmes, fotografias e um conhecimento da realidade tecnológica contemporânea que tornava isso factualmente «evidente». Podemos dizer que negar a ida à Lua não é a mesma coisa que negar um crime. Mas em termos formais é exactamente a mesma coisa: não acreditar  numa coisa, cuja grau de evidência não é igual ao de saber que está a fazer sol, que a chanceler alemã se chama Merkel ou que a Alemanha é campeã do mundo de futebol. Negar isso, indicia loucura, demência. Negar o holocausto, um crime hediondo, um dos mais bárbaros acontecimentos do século XX, indicia apenas estupidez, mas uma estupidez à qual todo o ser humano tem direito.