12 novembro, 2015

A CAVERNA E O POMAR

Nicholas Ray | Johnny Guitar [fotograma]

O Senhor levou o homem e colocou-o no jardim do Éden para o cultivar e, também, para o guardar. E o Senhor deu esta ordem ao homem: «Podes comer do fruto de todas as árvores do jardim; mas não comas o fruto da árvore da ciência do bem e do mal, porque, no dia em que o comeres, certamente morrerás» Génesis

Qualquer que seja o valor que se deva atribuir ao verdadeiro, ao verídico, ao desinteressado, talvez se possa atribuir à aparência, à vontade de ilusão, à cobiça e aos desejos, um valor mais elevado e fundamental para qualquer vida. Friederich Nietzsche, Para Além do Bem e do Mal


É impressionante como a inocência de uma aluna que faz o seu primeiro teste de Filosofia pode ao mesmo tempo revelar, sem disso ter consciência, profundidade. Uma das perguntas do teste pedia para relacionar um texto de Bertrand Russell sobre a atitude filosófica com a Alegoria da Caverna, de Platão. A meio da sua resposta, diz o seguinte: «Quando o prisioneiro é libertado e sai da caverna depara-se com a realidade, isso representa aquelas pessoas que descobrem a verdade acerca das coisas e que ficam desiludidas pois toda a sua vida viveram na ilusão»

Quase 30 anos a corrigir testes de Filosofia e há respostas que continuam a deixar-me desconcertado e sem saber como as avaliar. Em português corrente, ficar «desiludido» é mau. Uma pessoa fica «desiludida» quando espera uma coisa boa e apanha uma má. Fiquei «desiludido», por exemplo, quando vi Meia-Noite em Paris. Woody Allen é um dos meus realizadores preferidos e apanhei uma banhada de todo o tamanho com este filme. Se seguirmos esta pista semântica em relação à palavra «desiludidas» escrita na resposta, a mais plausível, atendendo à idade e imaturidade da aluna, estará a querer dizer que a libertação do prisioneiro foi negativa pois passou para um menor de grau de felicidade ou, como diria Espinosa, de alegria, ao ter descoberto a verdade. Ora, isto vai completamente contra o que nos diz Platão. O caminho que vai da caverna para o mundo exterior, onde finalmente se vai descobrir a verdade, é um privilégio que deve encher de satisfação quem o percorreu, que fica assim naturalmente melhor do que antes. Porém, se pensarmos na palavra no seu sentido mais puro, temos de admitir que qualquer pessoa que passou a ver bem o que antes via mal, passa por um processo de «desilusão». «Desiludir» é libertar-se da ilusão, da mentira, do erro, do engano, das falsas crenças. Neste sentido, o prisioneiro desilude-se uma vez que passou a ver a verdade quando antes via sombras, aparências, simulacros. O que se torna engraçado é pensar no facto de o contacto com a verdade poder ser apresentado com base nestes dois sentidos de «desilusão»: um emotivo (negativo, pessimista, pois cria tristeza, frustração) e outro epistemológico (positivo, optimista, pois permite ascender da ignorância ao conhecimento). 

Em Filosofia, tendemos a vender aos jovens, aliás, de um modo retoricamente sofisticado, a ideia de que a busca da verdade está associada a uma maior perfeição. A alegoria de Platão é, neste sentido, exemplar, levando-nos a lamentar a miserável situação dos prisioneiros que viveram sempre dentro da caverna, nutrindo por eles um sentimento de compaixão e comiseração, o contrário do que sentimos perante o prisioneiro libertado que vai das trevas para a luz. Eis o que a Filosofia pode ajudar a alcançar com a busca da verdade: uma vida melhor, uma vida com mais sentido, uma vida mais realizada. Mas será mesmo assim? Por que haverá a verdade de ser mais interessante do que a mentira? Por que haveremos de ganhar mais com a verdade do que com a mentira? Não será antes este alegórico enaltecimento da verdade, em oposição às miseráveis entranhas da caverna, uma fraude? Quem nos garante que iremos gostar de ver o que nos espera no exterior da caverna? Quem nos garante que a partir do momento em que saímos da caverna não iremos perder uma inocência que jamais voltaremos a ter? Quem me garante que a minha aluna, parecendo estar a dizer um daqueles disparates que pedem um ponto de interrogação a vermelho por cima da palavra, não exprimiu a ideia mais profunda e certeira de toda a turma? Preferi dar-lhe o benefício da dúvida e deixar a palavra imaculada na sua folha de teste.