02 outubro, 2015

TATI REVISITADO

Francisco Ontañon

Não é apenas por dentro que a escola de hoje é diferente da escola do meu tempo. Não me lembro, enquanto aluno, de haver filas de carros a deixar ou ir buscar os meninos  à escola, cenário, hoje, tão acentuado, ao ponto de existirem enormes congestionamentos nas horas de entrada e saída. Torres Novas é uma terra onde se está a 5 ou 10 minutos de tudo. Ainda assim, há pais que, diariamente, dão cambalhotas e fazem o pino só para que os filhos não tenham que andar 5 ou 10 minutos a pé de manhã ou à tarde. Literalmente. E quem diz levar à escola, diz a uma festa de anos, a casa de um amigo, às piscinas, ao pavilhão ou ao instituto.

Eu não venho aqui dar lições de moral sobre a maneira como cada filho é educado e o tipo de pessoas que os pais esperam que os filhos venham um dia a ser. Penso em questões de urbanismo, interrogando-me sobre o tipo de relação que as crianças e jovens desenvolvem com a cidade onde vivem. Andar de carro ou a pé não é a mesma coisa. E não estou a pensar na diferença, óbvia, entre a inércia e o movimento ou na relação entre o espaço e o tempo com base na velocidade. Penso, mais concretamente, e recorrendo a uma expressão de Paul Virilio, no modo como o espaço urbano se transforma numa simples superfície deslizante que anula a cidade enquanto lugar onde o espaço se torna território.  Andar de carro na cidade significa olhar para as ruas dessa cidade enquanto obstáculos entre dois pontos. A cidade torna-se, assim, num espaço exterior do qual estamos alheados, uma cidade cada vez mais percepcionada enquanto abstracção incapaz de se tornar território, uma cidade cada vez mais concentrada em espaços  focalizados, como são os espaços interiores, ou, de um modo cada vez mais significativo, os espaços virtuais (televisão, jogos de computador, facebook) nos quais se vive cada vez mais tempo e em total ruptura com o espaço público, razão de ser da própria ideia de cidade. Que tal revermos os filmes de Tati?