24 outubro, 2015

O SER E O NADA

Albrecht Bouts | Cristo Coroado com Espinhos, c. 1550

No Guerra e Paz, antes da terrível batalha de Austerlitz, os imperadores da Rússia e da Áustria vão fazer a revista às suas tropas. O modo como Tólstoi nos dá a conhecer o pensamentos e emoções de Nikolai Rostov perante a presença do imperador é um impressionante relato psicológico que pode ajudar a entender certas formas de alienação que podem levar a morrer por um Deus, pátria ou ideia, ou seja, tanto num contexto religioso como político. 

Nikolai perante o imperador está perante um Deus. O imperador, ali, não é um homem. É um ideal, uma energia, uma luz, um símbolo que reproduz fisicamente a ideia de plenitude. Hegel, quando vê Napoleão passar por debaixo da janela, diz que vê a alma do mundo montada a cavalo. Nikolai vê um Deus, tal como os apóstolos sentiram a presença de Jesus após a crucificação ou Jesus a si próprio antes de partir para junto do Pai. A presença do imperador provoca em Nikolai uma enorme vontade de chorar. Mais: de morrer. Sente, de repente, um intenso desejo de morrer, de se desintegrar. Pelo imperador. Uma espécie de desejo de dissolução dionisíaca que leva ao fim da consciência de si enquanto indivíduo e o desejo de se fundir com o todo, com a unidade primordial, neste caso, consubstanciada na figura do imperador russo. Nikolai chega mesmo a pensar: «Num momento de amor, enlevo e abnegação como este, o que podem significar todas as nossas zangas e ofensas? Neste momento gosto de todos». Quer dizer, gosta de todos porque já não gosta de ninguém, apenas sente um desejo de plenitude na figura do imperador.

Eu acho o seguinte: Rostov quer morrer pelo imperador, não porque deseje fundir-se com a plenitude mas porque deseja o nada. Ou melhor, não há diferença entre a plenitude e o nada. Como diria, na Ciência da Lógica, o mesmo Hegel que viu passar o imperador debaixo da janela, o puro ser e o puro nada são noções equivalentes: uma absoluta simplificação do real sem qualquer tipo de negações, contradições, longe da complexidade dinâmica de que é feita a realidade sensível. Na cabeça deste militar russo, desejar a plenitude é uma forma tão veemente de niilismo como desejar o nada. Rostov quer morrer porque não quer estar vivo. Eu sei que é um raciocínio muito lilicaneciano, da ordem do «estar morto é o contrário de estar vivo». Simples, primário, ridículo até. Mas tão simples, primário e ridículo como o que se passa dentro da cabeça de Nikolai na presença do imperador. Há coisas que não exigem grandes explicações, são mesmo assim. Durante o sono da razão emergem os monstros. Depois, tornamo-nos outra coisa. Deus é grande, dizem os terroristas islâmicos antes de morrerem. Tão grande quanto um imperador russo antes de uma grande batalha onde os militares vão morrer ou um Pai que chama o seu filho que agoniza na cruz, para depois dormirem eternamente o sono dos justos.