01 outubro, 2015

O MEU SÉCULO

John Bulmer

Vi uma série de fotografias com a informação de se tratar de «um fotógrafo chinês de meados do século passado». Eu olhei para as fotografias e fiquei baralhado pois nada ali fazia lembrar fotografia do século XIX. Só que, de repente, caí em mim: o século passado não é o século XIX mas o século XX. 
Há quase 15 anos que vivo no século XXI. Já tive muito tempo para, automaticamente, pensar no século XX como século passado. Só que o meu século, ainda que vivesse mais 300 anos, será sempre o século XX, o que faz com que o meu século passado seja sempre o século XIX. O século XXI é uma casa onde habito há 15 anos e onde já fiz muitas coisas. Aliás, eu hei-de morrer no século XXI e a morte é sempre uma coisa importante na vida de uma pessoa. Mas morrer num século não faz dele o nosso século. O nosso século nunca será aquele em que basta ter uma consciência do tempo que flui à nossa frente mas o século em que o tempo ficou congelado atrás de nós. Apesar de eu ter nascido quando o século XX já tinha feito 60 anos, o século XX será sempre o meu século. Mesmo a distante I Guerra Mundial é uma guerra do meu século, ao contrário da Guerra  Franco-Prussiana, que é, subjectivamente, "uma guerra do século passado", apesar de objectivamente não o ser. Isto não deixa de ser um pouco esquizofrénico. Eu vivo permanentemente no futuro mas será sempre ao passado que pertencerei toda a vida.