08 outubro, 2015

A MANCHA HUMANA

Alfred Hitchcock | Lifeboat [fotograma]

Toda a gente sabe que Portugal é um lugar perigoso para quem precisa de entrar numa casa de banho pública mas também é verdade que nunca estamos preparados para o pior. Há dias, numa viagem de comboio, precisei de ir à casa de banho. Abro a porta e entro no Inferno, não no de Dante mas no de Rabelais, confrontando-me com uma daquelas situações radicais que são mais uma facada nas nossas feridas narcísicas e que valem como todo um programa na área da Antropologia Filosófica: dentro da sanita, uma enorme, avassaladora, pletórica, mesopotâmica (de acordo com a estética hegeliana), ameaçadora cornucópia castanha, vulgo, cagalhão. Enfim, que os leitores me perdoem a indisfarçável falta de polidez mas não há eufemismo que possa traduzir, sem trair, o verdadeiro sentido, natureza ou estatuto ontológico daquela tétrica e granítica massa castanha. Claro que desisti do que me tinha levado até ali, que, felizmente, não era urgente, e lá regressei, pávido e nada sereno, ao meu lugar.

Não estava a brincar ou apenas tentar ser parvo, coisa para a qual não preciso de me esforçar muito, quando falei em Antropologia Filosófica. Sentar-me no lugar depois de uma experiência escatológica daquela dimensão, roubou-me a calma e tranquila concentração de que precisava para continuar com a Singela Proposta do meu Swift, precisando, como de pão para a boca, de olhar para os passageiros em meu redor em busca de uma humanidade da qual, momentos antes, me senti exilado. Deus sabe o quanto precisei, com inusitada avidez, de procurar rostos, olhares, expressões, gestos, bocejos, pessoas acordadas, pessoas a dormir, pessoas caladas, pessoas a falar, pessoas a ver filmes, a escrever sms's, a ler, a olhar pela janela, tudo, mas mesmo tudo o que me pudesse alhear, libertar, desalienar de toda aquela sinistra visão que exacerba o pessimismo e a angústia de todo o existencialista, enfim, esquecer o pesadelo e voltar a encontrar a luz que cintila à superfície da mais simples e radiante humanidade.

Mas, como diria um coro grego, os dados estavam lançados, a fortuna fugiu a sete pés para os antípodas e o destino riu-se da minha miséria com estridente escárnio: não consegui voltar a enfrentar a humanidade com os mesmos olhos. Olhava para a humanidade mesmo ali à minha frente, mas, ver, ver verdadeiramente, via só o cagalhão. Indelével, obsessivo, resiliente, conspurcando as sinapses do meu córtex pré-frontal, dando origem a um iníquo processo de obstipação mental. Queria olhar para as pessoas da maneira como devem ser olhadas mas a minha cabeça só expelia especulações imundas, fazendo de mim um tarado, se bem que tarado distópico. Já não se tratava de olhar para as pessoas em busca da sua sensualidade, da sua carne, da sua volúpia. Quisesse Deus que fosse isso. Não, a minha cabeça já só queria saber se era o maldito cagalhão parte intrínseca daquele jovem de calças rotas que não parava de ler e enviar mensagens. Ou se daquela mulher bonita, vistosa e elegantemente vestida que vinha junto à janela oposta à minha. Se daquele homem ou mulher que formavam um casal humilde, gente de poucos recursos, mesmo à minha frente. Eu queria associar o cagalhão à pessoa ou a pessoa ao cagalhão, pela sua idade, o seu sexo, a sua classe social, a sua educação, a sua beleza, o poder ser de esquerda, de direita ou do PS, a sua roupa, a sua personalidade, mas em vão. No meu obstipado cérebro apenas ressoavam, com sons guturais, como se fosse a Linda Blair no Exorcista na fase crítica em que cuspia líquidos verdes e castanhos e tinha hemorróidas no rosto, as palavras do papa Inocêncio III no De Miseria Humanae Vitae

"Tu, homem, andas pesquisando ervas e árvores; estas, porém, produzem flores, folhas e frutos, e tu produzes lêndeas, piolhos e vermes; daquelas brotam azeite, vinho e bálsamo, e do teu corpo escarros, urina e excrementos?"

Eis-me, pois, a pesquisar, não ervas e árvores, mas pessoas, simplesmente pessoas, com os psicológicos, sociológicos, antropológicos, semióticos quadros mentais com que estamos habituados a entendê-las e eis que na minha cabeça tudo se reduz a um fracturante cagalhão, perante cuja densidade ontológica ou pureza fenomenológica não há Psicologia, Sociologia, Antropologia ou Semiótica que resista. Se nas clássicas vanitas é o tempo e a morte que nos une, homens e mulheres, velhos e jovens, ricos e pobres, sábios e analfabetos, este cagalhão entrou na minha vida com o impacto de uma verdadeira ruptura epistemológica ou de um furacão evangélico se bem que para uma Má Nova. Sim, há o tempo. Sim, há a morte. De ora avante, há também aquele cagalhão. Nele está toda a humanidade sem dele poder fugir como todos os tripulantes no Lifeboat do Hitchcock. Nele tudo o que somos desaparece para nos tornarmos Nele. De ora avante, na minha vida, não verei nada tão comunista, tão verdadeiramente revolucionário ou tão evangelicamente igualitário, como aquele cagalhão. Em verdade vos digo: é mais fácil passar um camelo pelo buraco da agulha do que um rico comer o pão que o diabo amassou sem ter de se desfazer dele.