16 outubro, 2015

NUDISMO E FILOSOFIA



Quando fui para a universidade, ia indeciso entre Filosofia e Direito. A minha inclinação para Direito devia-se à imagem romântica e idealista do advogado, vinda do cinema clássico americano, imaginando-me um Gregory Peck torrejano a defender os injustiçados deste mundo. Mas a Filosofia parecia-me ter mais adrenalina intelectual. E numa idade em que gostava de acordar só para almoçar, a simples ideia de estar num tribunal às 9 da manhã, de fato e gravata, a tratar toda a gente por “senhor doutor”, para enfrentar sociedades comerciais, heranças ou divórcios, já me provocava claustrofobia e depressão. Cem vezes mais uma sala de aula para falar de Platão.

Mas o problema era ainda mais profundo. Um mês antes de concorrer, eu tinha feito campismo selvagem. Um mês inteiro a tomar apenas banho de mar, sem me pentear e a dormir numa tenda onde até os deuses ctónicos teriam medo de entrar. E fazia nudismo numas Galápagos algarvia, uma praia isolada, na companhia répteis, crustáceos e outros selvagens como eu, como aquela  militante da JCP, cuja única peça de roupa é uma boina com um crachá do Che Guevara . É uma sensação única. Ser uma mistura de Adão, Robinson Crusoé e John Lennon da fase Imagine. E poder nadar num mar cálido e sereno com a mesma liberdade com que nadamos 9 meses no líquido amniótico.

Era essa parte de mim que queria ir para Filosofia e não para Direito. Uma espécie de heideggerianismo avant la lettre. Que queria o lado puro e autêntico da vida, perceber a verdade das coisas sem artifícios, preconceitos morais ou visões normativas que atiram a vida para dentro de uma jaula, muito antes ainda de conhecer os célebres versos de William Blake: A robin red breast in a cage/Puts all heaven in a rage. Olhar para a vida sem me perder em imbróglios jurídicos produzidos por picuinhas cujas obras-primas se resumiam a rochosos códigos administrativos e penais. O que me interessava era a physis, a natureza na sua inocente espontaneidade, um estado edénico e não o Estado propriamente dito, a polis com as suas ridículas convenções. Quando se está numa praia apenas com o sol em cima e o mar em frente, fica-se arrepiado só de pensar na definição de Direito que aprendi quando andava no Liceu: “Um sistema de normas de conduta social cujo cumprimento é assegurado pela coacção dessas mesmas normas”. Kafka não diria melhor. Tão arrepiante como se estivesse no ambiente umbroso, silencioso, húmido e feérico do Buçaco, reflectindo sobre o Mistério do Ser e, de repente, o mundo se transformasse no enorme edifício de uma Companhia de Seguros cheio de burocratas.

Agora, o que é engraçado, é voltar a ter, tantos anos depois, a mesma ideia sobre a Filosofia e o Direito, depois de conhecer a lei n.º 53/2010 que, entretanto, revogou a lei nº29/94, a lei relativa à prática do nudismo. Diz a lei que se autoriza a prática do nudismo, desde que a praia esteja a mais de 750 metros (eram 1500) de uma igreja, escola ou aglomerado urbano. Ou seja: se houver uma praia “normal” perto de uma igreja ou escola já não há problema. Os fiéis cristãos, alunos ou cidadãos podem enfrentar, castamente, lascivos corpos bronzeados ou luzindo sensualmente com óleo de coco, desde que as pudenda estejam cobertas com um tranquilizador fato de banho. Mas se um pobre inocente quiser tomar uma banhoca como Deus o enviou ao mundo, já não o poderá fazer se tiver o azar da praia estar a 700 metros de uma escola ou igreja. Para o Direito, é mais ameaçadora a nudez de um cidadão a 700 metros de distância, do que a Rita Pereira a 50 metros, em fio dental e com a parte de cima do bikini reduzida a 1/5, comendo voluptuosamente um Corneto de morango.

Não menos curioso é o facto da lei ver o “nudismo como forma de desenvolvimento da saúde física e mental dos cidadãos, através da sua plena integração na natureza”. O Direito assume, pois, que o nudismo é saudável. E que contribui para a harmonia entre o homem e a natureza. Mas, depois, no melhor pano cai a nódoa. Na lei revogada dizia o legislador que “a prática do nudismo é permitida, desde que desacompanhada de atitudes susceptíveis de provocarem escândalo”. Ou seja, as brilhantes mentes que fazem as leis são capazes de ver com bons olhos a prática do nudismo mas, depois, de forma perversa e ardilosa, associar o facto de estar nu a possíveis práticas escandalosas. Mas porquê invocar tal regra só pelo facto de não se ter um fato de banho vestido? Não é essa regra aplicada em qualquer situação, seja numa praia, num parque ou no cimo de uma montanha? E não se podem fazer coisas escandalosas, vestido? Escandalosa é a falta de imaginação dos nossos legisladores. Onde é que há mais inocência? Em estar nu numa praia, reflectindo sobre o capítulo X das Confissões de Santo Agostinho, ou de fato e gravata pensando na melhor estratégia para mostrar a casa de campo à secretária depois de deixar a mulher e os filhos em casa dos sogros?
Eu só podia mesmo ter ido para Filosofia.