17 outubro, 2015

MOSCOVO

Toni Frissel | Lisboa, 1946

[Macha]: «Felizes daqueles que não se apercebem se é Verão ou se é Inverno. Se eu vivesse em Moscovo, creio que também me seria completamente indiferente o tempo que estivesse». Tchekov, As Três Irmãs

Quem é feliz gosta do calor do Verão e do frio do Inverno. Gosta do frio, chuva, do vento, do nevoeiro, do orvalho matinal e de um chá quente mas também do azul do céu, da sombra da árvore e da água que, no Verão, mata a sede ou refresca o corpo. Macha em Moscovo não ligaria ao tempo pois seria lá feliz e quem está feliz vê o tempo como uma extensão da sua felicidade ou a sua felicidade como uma extensão do tempo, ao contrário de quem é infeliz, que vê o tempo como uma extensão da sua infelicidade ou a sua infelicidade como uma extensão do tempo. 
Nós, portugueses, atravessamos a vida a lamentar o tempo. No Verão porque faz calor, no Inverno porque faz frio. A chuva é sempre uma chatice mas se não chove os Invernos já não são o que eram e ai a chuva que faz tanta falta. Mas se volta a chuva durante um Outono estupidamente seco e quente, o mundo volta a perder o encanto que, no fundo, nunca chegou verdadeiramente a ter. O tempo é quase sempre doentio, seja por excesso ou defeito. Ou melhor: mais do que ser doentio, o tempo, em Portugal, é uma doença, e adoecemos dele sem pensarmos no calor no Arizona, na humidade na Índia, no frio na Noruega ou como os londrinos suportam com estoicismo a chuva que raramente os larga.
A infelicidade é lixada. Alguém pode dizer a esta gente onde fica Moscovo?