23 outubro, 2015

LINHAS TORTAS

Jacques Henri Lartigue

"Diz-se que o sr. Dias vai mandar  construir um palacete  no Porto, onde tenciona fixar a sua residência. Damos os parabéns à cidade invicta por tão valiosa aquisição."  Camilo Castelo Branco, O Que Fazem Mulheres

Trata-se de um excerto de uma notícia de jornal, ficcionada por Camilo neste seu romance, a respeito do casamento do sr. João José Dias com a exª senhora Ludovina da Glória Pimenta. João José, enquanto figura, é bastante ridicularizado pelo escritor. Um novo rico que fez fortuna no Brasil, comprando o título de barão, e homem que, para além de fisicamente repugnante, não passa de um pacóvio ignorante e eloquente exemplo do mais bacoco provincianismo. Ludovina, por sua vez, é uma menina sedenta de bailes, passeios, vestidos, vida social iluminada pela chama do glamourEis o contexto em que surge o palacete. O palacete como expressão da glória social, da vaidade, do orgulho, construído com dinheiro proveniente de um trabalho que não poderia ser mais adverso à sensibilidade estética dos poetas, pintores, escultores, músicos, dinheiro ganho, moeda a moeda, à custa da ambição individual e em nome do mais vil materialismo económico.

Estes João José e Ludovina não passam de personagens saídas da pena de Camilo. Mas os palacetes que ainda hoje existem por esse país fora são absolutamente reais e resultam muitas vezes de histórias e casamentos como o de João José e Ludovina. Vamos por isso aqui encontrar uma tremenda ironia histórica. São estes palacetes que hoje dão beleza às cidades e não os horríveis prédios e casas construídos para armazenar as classes médias que foram emergindo ao longo do século XX. São esses palacetes construídos por ricos pacóvios e mulheres vaidosas que constituem hoje o mais valorizado património urbano das cidades. Palacetes que comprazem estetas e intelectuais que olham com desprezo para as classes empresariais e o dinheiro ganho numa economia movida pela ambição e o desejo de riqueza. São esses palacetes que alimentam lutas em defesa do património ameaçado, da identidade e da história, protagonizadas muitas vezes por pessoas que abominam o grande capital e a mórbida avidez pelo vil metal. Eis como na origem dessa identidade, dessa história, de valores estéticos, vamos encontrar a estupidez e ambição de João José ou a vaidade e exibicionismo de Ludovina. 

Na história haverá pouca coisa linear. A história, como dizia Lenine, está muito longe de ser uma aberta e rectilínea alameda onde poderíamos caminhar calmamente de olhos fechados sem nos perdermos. A história, pelo contrário, é uma espécie de bairro medieval feito de linhas tortas, onde tantas vezes nos perdemos para depois nos voltarmos a encontrar.