30 outubro, 2015

IMUNIDADE



«Escrevia livros tristes para pessoas alegres», dizia Nabokov a respeito de Tchekov. O humor, por essência, é ácido, cáustico, desmistificador, destruidor. Rir é anular a aparente seriedade ou normalidade das coisas, é fazer estalar o verniz que esconde umas unhas doentes ou que disfarça mesmo a ausência de unhas. Rir é despir, desmaquilhar, desligar repentinamente a música de fundo que dá ambiente onde o ambiente pura e simplesmente não existe.

O humor tchekoviano não é assim. Um humor lúcido, claro, pois todo o humor é feito de lucidez, mas, em vez de uma lucidez destruidora, vamos encontrar uma lucidez feita de melancólica bonomia perante a falha, o limite, a presença da ausência, o irónico desencontro com a felicidade. É, por isso, um humor pudico e que olha com respeito para o que é risível pois o que faz rir coincide com o que faz chorar. Neste sentido é um humor saudável. Nabokov tem toda a razão ao dizer também que só as pessoas alegres conseguem perceber a tristeza dos seus livros. Porque se trata de uma alegria contida, de uma alegria serena perante a iminência da falha, muito diferente, portanto, da alegria do indigente. Os tristes livros para pessoas alegres de Tchekov fez-me lembrar o facto de um realizador como Woody Allen ter filmes dramáticos como Intimidade, Uma Outra Mulher ou Matchpoint ou de um realizador como Bergman ter filmes cómicos como Sorrisos de uma Noite de Verão ou O Olho do Diabo

Não será para todos a capacidade de conter a depressiva tristeza com uma lúcida alegria mas também a de conter a torrencial alegria com uma lúcida tristeza. Enfim, a lucidez, tout court, será sempre um difícil e arriscado dom apenas ao alcance de quem olha para vida como um corpo imune.