22 outubro, 2015

HORIZONTE PERDIDO

Diane Arbus | 1970

Quem viaja de comboio entre Lisboa e o Porto, fica em estado de choque olfactivo com o nauseabundo cheiro que se faz sentir logo a seguir a Aveiro, na zona de Cacia. A parte boa é que dura apenas uns breves segundos. Cacia não é caso único. Mas, felizmente, se percorrermos Portugal de lés-a-lés, de olhos fechados ou simplesmente distraídos a ler um jornal, tendo apenas o olfacto como guia, iremos apenas ser incomodados em sítios muito específicos e por breves instantes. 

O pior é quando se viaja em Portugal de olhos abertos, que será o modo mais comum de se  viajar. Porquê? Porque apesar de a natureza não ter sido madrasta com este cantinho da Europa, conseguindo mesmo criar belas paisagens, os portugueses encarregaram-se de o destruir graças às casas que foram construindo para lá viver. Ou seja, viajar em Portugal é um prazer enquanto não surgem casas no horizonte. A partir do momento em que estas nos são atiradas à cara como murros visuais, começa o pesadelo para o viajante, estando essas casas para os nossos olhos como o cheiro de Cacia para o nariz.

Que Deus me perdoe o que vou dizer. Sempre que no Verão aparecem nos telejornais imagens de incêndios, com os «populares» e os bombeiros a apagarem os fogos, dizendo estes últimos que o seu grande objectivo é poupar as habitações em detrimento da floresta, o Mr Hyde que há em mim fica logo nervoso, pensando que faria mais sentido deixar as habitações arder para se dedicarem à floresta. Pronto, é verdade que a angústia e o desespero dos «populares», gente boa e honesta, rapidamente desperta a minha consciência para expulsar os meus mais perversos e inconfessáveis desejos. Mas não deixo de ficar dividido. Fosse eu comandante dos Bombeiros e tivesse de defender meia dúzia de horríveis habitações, deixando arder parte da serra de Sintra, do Bussaco, do Marão ou da Falperra, iria ficar cheio de problemas existenciais, acabando por pedir a demissão. 

Os sítios bonitos de Portugal parecem cada vez mais inocentes e imaculadas reservas índias ameaçadas pelo poder metastásico do casario, espalhado por todo o lado. O que me leva a pensar que o que se passa com a visão é precisamente o contrário do que se passa com o olfacto.  À excepção de alguns infectos pontos negros, podemos andar de nariz aberto por todo o lado. Já os olhos, só os podemos abrir nalguns sítios, que são cada vez mais paraísos perdidos num país massacrado pelo mau gosto de quem nele vive e pela incúria de quem por ele deveria zelar. É pena.