29 outubro, 2015

EM ROMA SÊ ROMANO

Ramon Masats | Seminário em Madrid, 1960

Esta notícia, associada a tantas outras ainda mais chocantes como esta mais antiga, sugere o modo duvidoso como a igreja católica gere o problema da homossexualidade dos padres ou futuros padres. Nada tenho, como pessoa, contra os pruridos da igreja face à sexualidade. Castidade e celibato dos padres? Não me diz respeito pois não sou católico nem padre. E se não me importam as decisões das direcções do Vitória de Guimarães ou do Estrela da Amadora, clubes de que não sou sócio nem adepto, também me é indiferente o modo como a igreja lida com o sexo. 

Isto não significa, porém, que, enquanto ser racional, não possa ficar perplexo com a especial discriminação de que são alvo os padres ou futuros padres homossexuais. Ora, se a igreja católica proíbe os seus  padres de terem relações sexuais, que diferença fará um padre ser homossexual ou heterossexual? O que deve fazer um padre se se sentir atraído por uma mulher, cenário nada implausível, atendendo às fraquezas da carne? Refrear, anular ou sublimar a sua pulsão sexual e seguir em frente, cumprindo as suas tarefas eclesiásticas. Entretanto, o que deve fazer um padre se se sentir atraído por um homem? Naturalmente que refrear, anular ou sublimar a sua pulsão sexual e seguir em frente, cumprindo as suas tarefas eclesiásticas. Se este anular o ser sexuado que há em si, o que o distingue de um padre hetero que igualmente anulou o ser sexuado que há em si? Um padre sexualmente anulado será simplesmente um padre sexualmente anulado e o que não existe não  pode ter graus ou naturezas. 

Se os padres holandeses quisessem mesmo ser coerentes e lógicos, teriam que defender não apenas a castração de padres homossexuais mas de todos os padres, pois se o problema de um padre que gosta de homens fica resolvido com a castração, o mesmo não se pode dizer de um padre não castrado que gosta de mulheres. Mas isto é a lógica a funcionar (e, felizmente nuns casos, infelizmente noutros, nem tudo na vida é governado pela lógica). Neste caso, a existir coerência, o mais sensato seria transformar os algozes também em sacrificados para se protegerem de si mesmos numa espécie de santa castração, deixando a normalidade e a vida como ela é para quem é normal e a deseja viver tal como Deus quis que ela fosse desde os mais imemoriais tempos bíblicos, quando era suposto os seres humanos crescerem e multiplicarem-se.