09 outubro, 2015

DA SUPREMA INUTILIDADE

Ingmar Bergman | Morangos Silvestres [fotograma]

Hoje, para ocupar uns breves minutos em que nada tinha para fazer mas sem tempo suficiente para fazer o que quer que fosse, lembrei-me de apagar números do telemóvel que deixaram de ser precisos. Comecei no A e lá fui por aí cima. Entretanto, dou com um nome que, pela sua inutilidade, me preparo para apagar. Um número para o qual de certeza não voltarei a ligar nem do qual irei receber chamadas pela simples razão de a pessoa já não fazer parte do mundo dos vivos.

Decidi não apagar. Embora tendo consciência da sua inutilidade, recusei-me a apagá-lo. E se um dia nos voltarmos a encontrar não há-de ser preciso o telemóvel para marcar o encontro. Isto levou-me a pensar na inutilidade de certos gestos que, por serem mesmo inúteis, podem ser os nossos gestos mais importantes. Estamos habituados a pensar as coisas de acordo com uma lógica funcional. As coisas são o que são porque servem para alguma coisa. Neste caso, o número não serve para nada. Mas, ao mesmo tempo, senti, não sei bem explicar, uma espécie de conforto interno, uma sensação de repouso e tranquilidade pela decisão de não o apagar. Irei continuar com o nome e o número de alguém que já morreu e é essa inutilidade que torna provavelmente aquele número o mais importante de todos os números que enchem a minha lista. E não se trata de precisar de lá ter o nome para não me esquecer da pessoa. Se assim fosse estaria eu a pensar funcionalmente: "Não apago o número porque...". E eu não estou a pensar funcionalmente. Não. Do que eu gosto mesmo é da sua inutilidade e tenho a consciência de que as coisas do mundo com mais valor serão também as mais inúteis, o que está muito longe de significar que uma coisa só porque é inútil tenha necessariamente valor. Trata-se apenas de exercer a minha liberdade interior. No mundo lá fora mandam as coisas. No meu mundo interior quero ser eu a mandar e fá-lo-ei enquanto a consciência e a memória mo permitirem.