21 outubro, 2015

CHUVA OBLÍQUA

Elliott Erwitt | The Kitchen Debate, 1959

Ontem, numa aula, precisei de explicar a diferença entre «verdade» e «verosimilhança» ou entre «verdadeiro» e «verosímil». Exemplifiquei, dizendo ser verdade que «está hoje bom tempo em Torres Novas». Mas como podia saber que «está bom tempo no Algarve» se não falei com ninguém de lá nem dispunha de qualquer informação meteorológica a respeito do Algarve? Ou seja, não posso dizer "É verdade que está bom tempo no Algarve». Porém, estando bom tempo em Torres Novas e sendo o tempo no Algarve habitualmente mais aprazível do que mais a norte, seria verosímil ou razoável concluir que «está bom tempo no Algarve». Todos eles, sem excepção, concordaram com a razoabilidade e verosimilhança do meu raciocínio, que pode ser apresentado desta maneira mais esquemática:

1. O tempo no Algarve é habitualmente mais aprazível do que nas zonas mais a norte. 
2. Está bom tempo Torres Novas, que fica bem a norte do Algarve. 
3. Logo, faz sentido pensar que está bom tempo no Algarve.

Entretanto, hoje, logo hoje, mostrando a realidade que vale sempre mais do que os nossos raciocínios e as nossas crenças, vejo esta notícia. Por muito sofisticados, razoáveis ou verosímeis que sejam os nossos pensamentos, será sempre a realidade a última a falar. Todavia, tendemos quase sempre a pensar como verdadeiro o que não passa de meramente verosímil. Por um lado, precisamos de o fazer. Se apenas acreditássemos no que é absolutamente seguro, arriscaríamos a cair numa certa inacção, fruto da dúvida e da descrença, tanto nas nossas acções como nos pensamentos. As crenças valem o que valem mas precisamos delas para agir, tomar decisões ou assumir certas ideias em relação ao que nos rodeia. Mas de que modo confundimos verdade e verosimilhança, tantas vezes com acérrima certeza, seja em questões de natureza política, ideológica, religiosa ou até pessoal?

Regressemos ao exemplo da aula. O meu raciocínio contém duas verdades: é verdade que o tempo no Algarve costuma ser melhor. Como também é verdade que no momento em que falei estava bom tempo em Torres Novas. Só que o facto de as premissas serem verdadeiras não obriga a que aquela conclusão, ainda que logicamente derivada daquelas, também o seja. Acontece que nos agarramos à parte do raciocínio que é verdadeira e, com isso, ousamos tornar igualmente verdadeiro, um facto que não passa de uma mera possibilidade.

Repito: é inevitável que assim seja, não há como escapar a este tipo de crenças em que muitas vezes caímos e fazemos cair os outros. O problema é quando a crença se torna arrogante, dogmática, imune a quaisquer críticas, num processo de auto-manipulação que leva muitas vezes a manipular tantas vezes os outros. Encontramos premissas verdadeiras e essas verdades acabam, depois, por disfarçar o facto de a conclusão, por muito verosímil que seja, não estar livre de ser falsa. Quando assim é, o que merecemos é mesmo um banho de realidade, nem que seja com a chuva do Algarve para despertarmos dos nossos sonos dogmáticos.