12 outubro, 2015

CHAVE SEM CHÁ E MADALENA

Yanina Boldyreva

Há dias, vindo a pé para casa, tirei a chave do bolso muito antes de chegar ao meu prédio. Nunca faço isso mas calhou dessa vez. Mal aconteceu, fui invadido pela seguinte recordação, tão repentina como um carro que acabasse de travar ruidosamente, ficando encostado às minhas pernas.

Em 1982, estava a estudar em Lisboa, num quarto alugado na Duque de Loulé, estando também nessa casa um rapaz amigo aqui da terra, que ficava na parte superior da avenida, mais perto do Liceu Camões do que do Marquês de Pombal. Uma noite fomos ao S. Jorge para ver, ainda me lembro A Amante do Tenente Francês, recordação normal, apesar da longa distância no tempo. O filme acabou e apanhámos o metro até à Rotunda. Quando vínhamos a subir as escadas da estação para a rua, o meu amigo tira o porta-chaves do bolso. E eu resolvo brincar com a situação, dizendo uma piada qualquer pelo facto de ainda estarmos muito longe de casa. Uma frase de circunstância, sem qualquer interesse e relevância perante um gesto insignificante, um daqueles milhares de gestos atómicos que naturalmente se desvanecem na espuma dos dias sem darmos por isso. Isto aconteceu há mais de 30 anos, sem nunca mais ter pensado nisso. Porém, bastou agora eu ter tirado a chave do bolso e, de imediato, décadas de esquecimento foram vencidas por uma imagem caída de rompante na minha consciência.

Isto fez-me pensar nos milhares de conteúdos mentais incubados na nossa mente sem termos a menor consciência deles e na sua absoluta falta de hierarquia, organização, arrumação. Eu penso numa turma que tive em 2009. Depois, nas minhas férias de 2008. Entretanto, lembro-me dos nascimentos dos meus filhos, em 1998 e 1992. E de uma operação que fiz em 1987. E da minha chegada à universidade em 1982. Há uma ordem nisto. Um antes e e um depois. Eu olho para estes acontecimentos e vejo uma enorme escadaria com degraus mais abaixo e outros mais acima. Mas o que agora aconteceu ao tirar a chave do bolso é de uma dimensão mnésica completamente diferente. Um minúsculo facto de há mais de 30 anos, soterrado, surge em simultâneo com uma sensação presente, fresca que nem uma alface. Lado a lado. Sem antes nem depois, sem tempo, sem distância. Já não há uma escadaria onde estão hierarquicamente organizados os conteúdos. É como se todos esses conteúdos estivessem misturados caoticamente dentro de uma caixa, sem qualquer critério de arquivamento. Ou como se estivesse a ver dois quadros lado a lado numa parede. Não os vejo numa perspectiva tridimensional, um mais perto e outro mais longe, mas absolutamente lado a lado.

Temos dentro de nós um mundo sem relógios, sem calendário, sem agendas. Não nos lembramos do que almoçámos há 3 dias mas podemo-nos lembrar de um facto inútil e irrelevante adormecido há mais de 30 anos como se tivesse sido vivido há 5 minutos. É como se o rei D. Dinis surgisse agora de repente sentado num Conselho de Ministros no meio de gente engravatada com portáteis à frente. Só que, no real, isso não é possível, sujeito que está às leis da física e da biologia. A nossa mente, pelo contrário, não está sujeita a quaisquer leis. É um buraco negro sem gavetas e prateleiras onde os conteúdos esvoaçam como uma folha de papel num remoinho de vento. É isso que é mais fascinante nela. É também isso que mais assusta.